Dirceu Magri Miscelânia

A farsa da liberdade de expressão

Dirceu Magri
Escrito por: Dirceu Magri

Por Dirceu Magri – Monica Iozzi, novata na arte da interpretação, seja por seus trabalhos como atriz, seja pela destreza exibida nas vezes em que, arremedo de jornalista, meteu-se a comentarista e repórter de programas B, há muito frequenta o noticiário das celebridades.

Monica sentiu-se tão à vontade com as perguntas diretas que lançava às subcelebridades que ao referir-se ao ignaro e peripatético ministro Gilmar Mendes em sua conta do Instagram, tratou-o como devia ser tratado: um cidadão como qualquer outro que, não se sabe bem o porquê, deu asas à liberdade ao médico monstro. Nós cidadãos não entendemos, Monica não entendeu e deu no que deu. Monica foi punida por fazer um comentário, aliás, nada que qualquer uma das cidadãs abusadas pelo tal médico não tivesse engasgado na garganta.

Gilmar Mendes também não entendeu o comentário da Monica, e, achando-se acima da lei, por um momento esqueceu-se de seu lado histriônico e exibicionista, valeu-se do poder do cargo, disse ter se sentido moralmente ofendido (o que não questiono) e colocou a maquineta da república em andamento no intuito de penalizar Monica, aumentando ainda mais seus caraminguás, juntando estes àqueles de Furnas. Monica pagou caro por seu engano, qual seja, acreditar que vivemos em uma democracia em que há a tão sonora liberdade de expressão. Não há, Monica!

Há pouco li sobre uma esportista que retrucou comentários de um apresentador. Segundo o bom moço, quem não pensa exatamente como ele, bom sujeito não é, ou é ruim da cabeça ou doente do pé, valendo-me aqui de um verso da célebre canção. Ocorre que o samba do rapaz deixa a gente mole e quando se canta nem todo mundo bole; é samba de uma nota só, que exclui toda e qualquer pluralidade de ideias. Não é música, não se combinam sons e ritmos, não há sequer organização de tempo, não há polifonia. Tudo ali é do jeito dele, uma ladainha cuja invocação tem sempre o mesmo santo e faz uso da mesma reza.

Esses moços, pobres moços… deixam o céu por ser escuro e vão ao inferno à procura luz! E Ave Lupicínio! Este sim, santo, poeta e músico!

O fato é que a ideologia emburrece até mesmo as mentes que se acreditam pensantes. Hoje, em tempos bicudos em que a polaridade atinge seu ápice, dividindo o país em duas bandas, as ideias andam bem embaralhadas. O povo se deixa levar e as instituições aproveitam de certo vácuo para impor suas estripulias.

Se nas redes sociais uns execram outros, em que pautar o caráter e a moralidade (não a cristã, falo daquela característica de um observador, um analista, enfim, um moralista) já parece um lugar comum reflexivo, quando instituições como a Procuradoria Geral da República infringe as leis, isto é realmente algo com que o cidadão deve se preocupar.

Leitor, veja você que nesta semana a Procuradoria deixou vazar uma conversa do jornalista Reinaldo Azevedo com uma de suas fontes, no caso, a irmã do senador presidenciável afastado por corrupção. Ocorre que senador e jornalista são declaradamente de direita (considere, leitor, que posicionamentos políticos como esquerda e direita são relativos no Brasil, país em que a canaille se agrupa para surrupiar o erário).

Dito isto, não é preciso dizer que o lado oponente vibrou com a divulgação das gravações da dita conversa, ainda que a mesma Procuradoria afirmasse que nada ali houvesse que constrangesse jornalista e fonte. O fato é que ao fazê-lo, o oponente esqueceu-se de que a sonora liberdade de expressão foi ferida na alma.

Afora os comentários comumente irascíveis e repudiáveis do jornalista, que defendia a Lava Jato enquanto seus oponentes políticos eram investigados, e, agora que suas fontes passam pelo mesmo processo, coloca-se radicalmente contra a investigação, o que está em jogo é a liberdade de expressão e, de arrasto, a pluralidade das ideias.

O que os oponentes de Azevedo não se deram conta é que o Estado começou a interceptar conversas particulares, no caso, para punir um jornalista por suas posições, seus pontos de vista. Vale lembrar que Azevedo já fez duras críticas aos procuradores, à Procuradoria.

O que não se pode é ignorar ataques à privacidade, sobretudo em questões que envolvem pluralidade de ideias, desacordo de visões de mundo. Festejar isto é muito pior; é esquecer-se de que ao fazê-lo, tornamos impossível ataques similares àqueles que expressam nossos pontos de vista.

Por fim, em tempos em que arremedos de comentaristas e filósofos abundam nas redes sociais, cada um mais certo de sua verdade que qualquer outro, vale recordar Luciano de Samosata, que coloca tais filósofos como parte de uma “raça preguiçosa, rixenta, vaidosa, irascível, gulosa, desmiolada e orgulhosa”, por isso, nada melhor a fazer que sacar um espelho qualquer, olhar-se por um bom tempo e refletir um pouco sobre o que nele vemos.

Imagem de capa: Reprodução

Sobre o autor

Dirceu Magri

Dirceu Magri

DIRCEU MAGRI é mestre e doutor em literatura francesa pela Universidade de São Paulo. É membro da Société Française d’Étude du Dix-Huitième Siècle (Sfeds) e editor da Revista Non Plus. É autor de De Borboletas e colibris em sobrevoo: a presença francesa nas crônicas machadianas (Editora FAP-UNIFESP, 2016) e pesquisador na área das relações literárias França-Brasil. Professor Visitante, leciona Língua e Literatura Francesa na UFV (Universidade Federal de Viçosa).

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