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Ítaca ou Pasárgada?

Dirceu Magri
Escrito por: Dirceu Magri

Por Dirceu Magri – Ítaca ou Pasárgada? As notícias da semana, em grande parte protagonizadas pela canaille, não nos deixam dúvida: devemos fugir. Antes que escolha entre Ítaca ou Pasárgada, as sinapses me trazem aos ouvidos a canção de G. Gil. Ocorre que a canção é de um lúdico rasteiro, nem mesmo serve para alentar qualquer espírito já turvo e lesionado por falta de oxigênio. A canaille nos rouba o ar e não temos herói que nos liberte ou louco que nos traga à sanidade.

Fugir? Para onde? Ítaca é um longo caminho de volta. Não à toa Penélope ali esperou por Ulisses por mais de uma década. A viagem até Ítaca é repleta de aventuras; encontramos ciclopes pelo caminho. Porém, não ligamos, pois a poeira dos tempos encarregou-se de apagar de nossa memória Polifermo e tantos outros que, com Hefesto, forjavam os raios usados por Zeus.

Perdemos toda e qualquer nobreza mítico-literária, já não há mais deuses e semideuses, somos todos iguais em nossa utópica república do politicamente correto. Incoerentes, vivemos em meio a uma violência moral, em que a notícia e o fato cruento surgem implacáveis e impiedosos. Hoje, forjam-se raios em mãos moral e profundamente comprometidas. Nossos ciclopes continuam a ser divididos entre os de primeira e os da nova geração, contudo, travestidos de vampiros, sugam-nos o sangue e a alma, tratando-nos com extrema indiferença.

A estrada, sabemos, é longa: mais ou menos setenta, oitenta anos, e atravessamo-la a trancos e barrancos. As manhãs de verão são muitas, mas a alegria de ver novos portos é sempre uma incógnita. Por mais que conheçamos outras paragens, não devemos perder Ítaca de vista, pois nosso destino será nosso alento. Como dizia o poeta, ainda que Ítaca não nos dê muitas riquezas, ela nos dará uma bela viagem, ademais, sem ela não teríamos partido.

Seja a pé, seja de trem, mesmo se Ítaca nos parecer pobre, ela nos terá feito sábios, e, por causa dela, teremos vivido uma vida plena e intensa. O mesmo ocorrerá se decidirmos por Pasárgada, esse país de delícias imaginado pelo poeta.

Contudo, só vamos para Pasárgada porque aqui não somos felizes e também porque lá somos amigos do rei. Por isso importa a viagem. “E quando eu estiver mais triste/ Mas triste de não ter jeito/ Quando de noite me der/ Vontade de me matar”… Ah, Bandeira! Se tivesses lido o que li hoje… Ficarias mesmo muito triste ao ver que chegamos onde nunca imaginaste…

Veja você leitor: em Luiziana, um pequeno vilarejo no centro-oeste do Paraná, o ex-prefeito José Claudio Pol, também conhecido por Claudião tornou-se réu por homicídio e peculato em uma ação criminal. Até aí nada de novo, afinal, políticos tornarem-se réus já é lugar-comum no noticiário nacional. O estranhamento, no caso, vem da própria imprensa ao relatar tais peripécias nas páginas de política e não nas páginas de polícia.

Bem, o vilarejo em que Claudião reinava possuía um só cilindro de oxigênio móvel da unidade de saúde, e não é que Claudião, também cachaceiro, tomou emprestado o tal do cilindro da unidade de saúde para bombear chope em sua festinha particular? Tudo passaria desapercebido não fosse uma paciente inoportuna que resolvera passar mal justamente enquanto Claudião e sua prole sorviam do chope bombeado com o oxigênio que, surrupiado da paciente, obrigou-a a apressar sua visita ao Hades.

O irônico é que na foto publicada pelo familiares de Claudião, o cilindro está logo abaixo de um quadro que exibe o rosto do Cristo entalhado em madeira. Ainda que de muito mal gosto, a representação do Mestre não deixa de ressaltar a nulidade de seus conselhos, ao menos para Claudião, o fariseu, que, pelo menos por enquanto, não se encaixa bem na historieta do filho pródigo, pois antes terá que se ver com a justiça.

Como vês, leitor, a saída é fugir: seja voltar a Ítaca, de onde nunca deveríamos ter saído, seja para Pasárgada, onde somos amigos do rei. Deixemos a pátria mãe gentil; distraída, se Claudião lançar nova candidatura em 2018, ela o receberá de braços abertos. Hipócritas, bradamos alguma dose de moralidade, mas gostamos mesmo é de uma boa patifaria. O STF está aí e não me deixa mentir. 2018 está às portas!

Mas não nos condenemos! Não somos muito diferentes de outros povos, afinal, há mais de dois mil anos libertaram Barrabás!

Imagem: Vers Ithaque, de Henry Pou

Sobre o autor

Dirceu Magri

Dirceu Magri

DIRCEU MAGRI é mestre e doutor em literatura francesa pela Universidade de São Paulo. É membro da Société Française d’Étude du Dix-Huitième Siècle (Sfeds) e editor da Revista Non Plus. É autor de De Borboletas e colibris em sobrevoo: a presença francesa nas crônicas machadianas (Editora FAP-UNIFESP, 2016) e pesquisador na área das relações literárias França-Brasil. Professor Visitante, leciona Língua e Literatura Francesa na UFV (Universidade Federal de Viçosa).

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