Dirceu Magri Miscelânia

07/10/2018 e a importância do voto em Bananalândia

Dirceu Magri
Escrito por: Dirceu Magri

A uma semana do sufrágio, palavra cujo significado alguns partidos (se me acompanha, leitor, há de notar que um dia ao referir-me a esses ajuntamentos ditos ‘políticos’, utilizei as palavras ‘quadrilhas’, ‘corjas’ etc, mas, hoje, decidi não tecer com pleonasmos e redundâncias a trama desta curta prosa!) sonegam aos seus eleitores, parece-me que o dito de Neruda, a filosofia de Taine e a livre expressão de ideias vêm à tona.

Vá lá! Neruda, por ser poeta, mexe com os sentimentos do leitor, e pode ser que este, em momento de franca fragilidade (ah!, as aliterações) existencial, emule de suas ideias o ritmo, a métrica, a lírica e tudo o mais que transcenda ao mundo fático, tomando seus versos por mera autoajuda ou, no melhor dos casos, como judiciosa advertência. “Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências.”

O pleito do final de semana coloca o eleitor honesto – e só utilizo tal adjetivo porque, como Anne Frank, ainda acredito na bondade humana – entre a cruz e a espada: de um lado a busca por um salvador da pátria advinda do cansaço e da desilusão de experiências recentes, de outro, a crença nas divisas libertárias e humanistas que movimentam os espíritos racionalistas. Em ambos os casos Neruda adverte, você há de ser prisioneiro de seus escolhas: os primeiros, podem provar do fel – ou do mel -, que surpreende o paladar ao provar do fruto exótico; os últimos, creio eu, se não se derem conta de que nisto que chamamos de pós-modernidade, a razão como totalidade caminha a passos largos em direção à própria degeneração, preconizando a dissolução de valores e costumes. Estes, ainda não apreenderam que a razão já não oferece qualquer garantia de compreensão do mundo, visto que, muitas vezes, está comprometida com as cabalas e jogos do poder, insurgindo-se como agente de repressão.

A repressão, no caso, começa por desqualificar aquele que não compartilha de suas próprias ideias – ainda que seja seu partidário, pouco importa. Até mesmo a grande imprensa (veja nosso Pravda tupiniquim) filtra as notícias e ludibria o leitor, alterando de forma exponencial fatos sem importância para, dessa forma, desviar o olhar e a atenção daquilo que compromete, tudo porque as ideias ditas contrárias não se ajustam aos próprios interesses. E não me venham com o evangelho da ideologia porque isso não pega mais! Não há ideologia em nada disso! O que é há são projetos de poder e a ideologia vem de arrasto, no intuito de sedimentar planos, conchavos, conluios, tramoias, intrigas, desvios… – e a ganância pelo poder tout court.

É nessa hora que se desmontam os discursos, sobretudo aqueles construídos sobre a pluralidade de ideias e a alteridade, uma vez que o que serve para mim não serve para você, isto é, o que eu digo merece ser considerado, refletido, discutido, o que você diz é algo extremamente retrógado, representa o que há de mais primitivo no âmbito das ideias, é primário, sequer pode ser levado em conta. Nas universidades, em congressos, já vi alunos e professores levantarem-se e deixarem a sala, afinal, a correção e a superioridade de suas opiniões podem ferir-se face a argumentos contrários – e tão chinfrins! Tal é a susceptibilidade – e arrogância – intelectual!

Os discursos desmoronam-se pela intolerância: os que mais professam a intolerância, utilizam-na como prescrição diária! E é aí que Taine entra na trama, já que os primeiros fios que se rompem desse discurso autocentrado mostram a resistência do indivíduo à compreensão, ao debate e ao pluralismo. Embora, nos corredores e nos cafés exibam postura democrática e modernosa, ao defenderem suas ideias a partir da leitura de um livro só, negam inteiramente toda a prática acadêmica (falo dos meios universitários), que consiste na comparação e confrontação de pontos de vista e mostram-se tal como Taine professava, qual seja, reiteram a afirmação de que o ambiente, a raça e o momento histórico determinam a compreensão do homem e da história.

Ora, sob tais discursos, fulano ou beltrano não podem votar em sicrano dada a cor de sua pele e/ou sua condição social, ou ainda porque em períodos recentes beneficiou-se de alguma ajuda do erário. É claro que tudo isso não é dito descaradamente, mas leitores e observadores contumazes leem entrelinhas, pausas, entonações. E tudo está lá, claro, límpido, uma vez que em tais discursos sobejam ideias deterministas. Por isso, parece-me importante o voto do final de semana, tão importante quanto aquele churrasco na laje, afinal, em nossa pobre cleptocracia, resta optar por aquele que, hipoteticamente, versará alguns caraminguás do erário em nossa burra! O presidente está morto! Viva o presidente! Viva Bananalândia!

Imagem: reprodução

Sobre o autor

Dirceu Magri

Dirceu Magri

DIRCEU MAGRI é mestre e doutor em literatura francesa pela Universidade de São Paulo. É membro da Société Française d’Étude du Dix-Huitième Siècle (Sfeds) e editor da Revista Non Plus. É autor de De Borboletas e colibris em sobrevoo: a presença francesa nas crônicas machadianas (Editora FAP-UNIFESP, 2016) e pesquisador na área das relações literárias França-Brasil. Professor Visitante, leciona Língua e Literatura Francesa na UFV (Universidade Federal de Viçosa).

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