16ª Balada Literária: a essência que resiste

As autoras Geni Guimarães e Eliane Potiguara, homenageadas da Balada Literária 2021/Reprodução

Márcio Ketner Sguassábia – Especial para o Z1 Portal

A décima sexta edição consecutiva da Balada Literária está acontecendo pelo segundo ano de maneira virtual. A pandemia não impediu que essa festa acontecesse, reunindo, como sempre, artistas dos quatro cantos do Brasil e do mundo. O projeto, que vai do dia 17 ao dia 21 deste mês, foi concebido pelo escritor e agitador cultural Marcelino Freire e busca, desde 2006, agregar interessados no aprendizado e na defesa da literatura. Sendo uma comunhão multifacetária, engloba discussões de extrema importância, como o racismo, a homofobia, a transfobia e as desigualdades, sempre plurais em nosso país.

Todo ano são feitas homenagens a escritores e escritoras. Em 2021, duas mulheres incríveis têm seus nomes no centro de nossas atenções: Eliane Potiguara e Geni Guimarães. A primeira, indígena, ativista e professora. A segunda, negra, ativista e professora. Ambas carregando no sangue a força e a resistência das origens. Ambas lutando com seus versos pela defesa de seus ideais, pelo respeito às suas tradições e pela plena integração humana, em que não há lugar para a ofensa, para o ódio e para a discriminação.

Esta crônica não poderia discorrer sobre toda a programação do evento, que pode ser encontrada na internet, tamanho é o número e a qualidade das atrações. Cafés da manhã, lives, documentários, gravações especiais, saraus e debates permeiam o programa, aquecendo os corações de todos os amantes da arte e da poesia.

De Geni, colhi uma “Oração da Rebeldia”, dita por sua nora em “Zumbizando – um recital negro”, que reuniu amigos e familiares da poeta em Barra Bonita, sua cidade. Ei-la:

“Lei áurea

que estais nos livros,

santificando diversos nomes,

deixai a nós

o nosso reino,

pois não faremos a tua vontade,

aqui na terra nem lá no céu.

 

O pão nosso,

de cada dia, fazemos hoje.

Para convosco não termos dívidas

nem para com ninguém,

que nos tenha ofendido.

Livrar-nos-emos do vosso mal.

Amém.”

E quando já não me continha de emoção, foi no primeiro café da manhã, que eu pude ouvir, de Eliane, uma frase que deixo aqui, para que seja guardada, ao tempo que distribuída. Pedida para aconselhar os jovens que se aventuram na literatura, ela indicou o caminho: “o que é preciso é buscar, todos os dias, e cada vez mais, o olhar, a observância às mínimas coisas. Como você observa a chuva? Como você observa uma mina d’água? O nascer de um pássaro?”.

Não há mais o que dizer, senão agradecer. Viva Eliane Potiguara! Viva Geni Guimarães! Viva a literatura do Brasil! A todos, todas e todes, uma ótima Balada!!!