Dirceu Magri Miscelânia

Agonia

Dirceu Magri
Escrito por: Dirceu Magri

Como o mar não está para peixe, falemos de literatura, ou sua materialidade, que seja! Hoje leio que editoras acabam de criar um bloco para negociar com as grandes livrarias. Estas, por sua vez, vivem um momento sombrio, em meio ao fechamento de lojas e pedidos de concordata. Quem já leu Ilusões Perdidas, este, um genial livro sobre o livro, há de saber que a vida nunca foi fácil para os livreiros, que sempre pescaram lambaris em água salgada.

A culpa, creditam à ausência de público leitor. Não os culpo, afinal, não é difícil constatar que o livro tornou-se um objeto estranho ao alunado. A má administração? Vá lá, pode ser que tenha nisso sua contribuição, afinal, hoje há muito gueri-gueri e livraria, sabemos, não é sex-shop ou grande magazine. Já não vemos aquelas livrarias em que a figura central era o livreiro com toda a sua sabedoria conhecimento invejáveis sobre autores, fábulas e personagens; verdadeiro crítico, este senhor que, não raro, ignorava as vitrines de néon em proveito de um banquinho de madeira puído, no qual se acomodava para trocar historietas com seus clientes habituais, encantava leitores. A memória me leva ao passado e imagino Garnier a tagarelar com os grandes de nossa literatura que flanavam pela Rua do Ouvidor. As reminiscências, verdadeira rede de arrasto, não me deixam esquecer do livreiro da Livraria Universal, ali na Francisco Glicério, ao lado do saudoso Hotel Terminus, a me recomendar Vida e feitos de Júlio César, obra que consumiu os caraminguás que havia poupado por mais de dois meses; a João Amêndola, onde adquiri meu Raul Pompéia, a Anchieta… todas, livrarias que se perderam na poeira do tempo e, com elas, seus grandes livreiros.

O fato é que não há culpados: a vida muda e isso é tudo! Houve o tempo dos códices, dos incunábulos; veio a imprensa e a popularização do livro, veio a Encyclopédie, veio muita literatura da boa, vieram as edições bem cuidadas, fetiches de colecionadores e orgulho das bibliotecas, veio a crítica que, por sua vez, matou os autores e previu a agonia e morte da literatura e, hoje, acreditem, vemos o fechamento de livrarias, alunos de letras que odeiam livros e se insurgem contra Vargas Lhosa, Harold Bloom e muitos outros, vomitando toda uma sapiência adquirida via scroll-down/scroll-up na grande obra facebookiana cujo autor, como previra a crítica, faleceu! Não há culpados, repito. Tornamo-nos uma sociedade pautada pelo visual, não temos paciência de ler meia dúzias de linhas; hoje, leem-se os títulos e produzem-se longos discursos orais cuja síntese é um tema na foto de perfil do facebook.

O fato é que a tecnologia, assim como fizera à época de Gutenberg, transformou o livro, a literatura, o que se lê e o jornalismo. Este último, parece-me, tem recebido estocadas mortais, sobretudo em época de eleições. Em um só golpe, padeceu a grande imprensa, antes chamada de golpista, e os marqueteiros, em proveito de um treco chamado whatsapp, execrado pelos jornais, televisões e toda a tropa que grita em favor da democracia. Para o bem ou para o mal, ainda não sabemos, o aplicativo deu certa independência ao cidadão, tirando-o das amarras alienantes impostas pelo poder e pelos órgãos de imprensa. Ao menos superficialmente, parece-me, a notícia tem se disseminado como rastilho de pólvora, sem as comportas impostas pelos grandes órgãos de imprensa associados ao poder. Ainda que haja muita invencionice, só o fato de você compartilhar a ideia sem ter que pedir aos Macedos, aos Saads e aos Marinhos, ah, convenhamos, isso já é uma grande coisa!

A literatura? Esta jaz na cama do hospital, em agonia, mas resiste! Desde que os aspectos estéticos começaram a perder terreno em decorrência da banalização do conceito de “literatura” (Perrone-Moisés), e o sexo passou a ser discutido na narrativa de modo que toda uma leva de alunos está mais preocupada com o fiofó da personagem que seu lugar no mundo, muita gente já foi visitá-la no hospital e de lá saiu com um prognóstico nada positivo: Sartre, Blanchot, Todorov, Derrida, Otávio Paz e agora, em nossos dias, toda uma tchurminha que produz dissertações e teses sobre nada, já que não tem paciência ou não é capaz de ler textos que ultrapassem meia dúzia de linhas. Talvez, por isso mesmo a literatura resiste, ainda em estado de agonia, mas resiste!

Imagem: reprodução

Sobre o autor

Dirceu Magri

Dirceu Magri

DIRCEU MAGRI é mestre e doutor em literatura francesa pela Universidade de São Paulo. É membro da Société Française d’Étude du Dix-Huitième Siècle (Sfeds) e editor da Revista Non Plus. É autor de De Borboletas e colibris em sobrevoo: a presença francesa nas crônicas machadianas (Editora FAP-UNIFESP, 2016) e pesquisador na área das relações literárias França-Brasil. Professor Visitante, leciona Língua e Literatura Francesa na UFV (Universidade Federal de Viçosa).

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