Cheias no Acre já atingem o Amazonas e são agravadas pelo desmatamento da região

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As cheias são fenômenos comuns na Amazônia nos meses chuvosos. Com menos árvores em pé, é possível que elas ocorram em maior intensidade - Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real

Moradora de um bairro às margens do rio Acre na capital do estado, Maria Tibúrcio, de 61 anos, sabe como é o drama de ter a casa invadida pelas águas durante os meses de chuva. A Baixada da Habitasa é um dos primeiros bairros a ser atingido pela inundação. Após seis anos de “tranquilidade”, sem inundações, Maria Tibúrcio é um exemplo das pessoas que preferem conviver com a água na porta de casa a ir para um abrigo. “A gente fica preocupada porque não sabemos o tanto de água que vai subir e a gente se preocupa com as coisas que temos. Ainda bem que já está secando”, explica.
Conhecido como La Niña, o fenômeno de águas frias do Oceano Pacífico faz o período de chuvas na Amazônia – o “inverno amazônico” – ser mais severo neste começo de ano. A condição é reforçada por temperaturas acima do normal no Atlântico norte. Essas são as principais causas apontadas pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para explicar precipitações acumuladas de até 100 milímetros (mm) em um único dia em muitas regiões do Acre.
O resultado são 10 das 22 cidades acreanas afetadas pelas enchentes, incluindo a capital Rio Branco. De acordo com dados da Defesa Civil, a estimativa é a de que 127.331 pessoas foram de alguma forma atingidas pelas inundações. A quantidade representa 14% da população acreana. Em Cruzeiro do Sul, segunda maior cidade do estado, o rio Juruá atingiu em 2021 o maior nível histórico, com 14,36 metros, impactando 33 mil dos seus 89 mil habitantes.
Mas o desejo de Maria Tibúrcio ver a água longe de casa ainda levará mais um tempo. As previsões apontam março e abril ainda de muitas chuvas. Apesar da vazante na capital, o rio Acre apresentou elevação nas cabeceiras nos municípios de Assis Brasil e Brasileia, o que influenciará diretamente em Rio Branco nos próximos dias. Caso o nível do rio suba, Maria já tem uma canoa na porta de casa para retirar os móveis. “A canoa é para não depender de ninguém.” A água sobe tão rapidamente que, muitas vezes, a ajuda da Defesa Civil não chega a tempo.
O rio Acre apresentou oscilações significativas em seu volume na capital. Após ter alcançado a marca dos 15,49 metros às 6 horas do último dia 21, baixou para 14,99 metros na primeira medição do dia 25. Já ao meio-dia ele voltou a subir, marcando 15,03 metros. Na tarde deste sábado (27), atingia 13,85 metros, estando um pouco abaixo da cota de transbordamento (14 metros), mas ainda acima da de alerta (13,50 metros).
A cota máxima atingida pelo rio neste ano foi de 15,84 metros. Até o momento, os municípios de Rio Branco e Boca do Acre, no Amazonas, são afetados pelo transbordo do rio. Em março de 2015, o rio Acre chegou à marca dos 18,40 metros, superando o então nível histórico de 1997, de 17,66 metros. Segundo dados do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), as chuvas na parte alta do rio ficaram abaixo da média em fevereiro deste ano. Em Brasileia, a concentração média de chuvas é de 283,20 milímetros; do primeiro dia do mês até sábado, 27, choveu 236 milímetros.
Após a região ter sido afetada, em 2020, por um clima seco que levou estes mesmos rios a níveis críticos de vazante, por conta das águas mais quentes no Atlântico norte, agora o esfriamento do Pacífico provoca um volume elevado de chuvas, com as consequentes inundações.

Chuvas acima do normal no Acre

A cheia do rio Acre, em Rio Branco, deixa ruas alagadas na periferia da cidade
(Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real)

Em Rio Branco, as chuvas ficaram acima do normal. A precipitação foi de 343 milímetros, para média de 285 milímetros. As chuvas que caem na capital não influenciam diretamente no nível do rio Acre, apenas nos igarapés que cruzam os bairros. Na virada de 5 para 6 de fevereiro, os igarapés transbordaram, atingindo entre 13 e 14 mil pessoas. A cheia do rio, segundo a Defesa Civil do Acre, impacta outras 20 mil  pessoas do estado. Juntas, as duas inundações foram sentidas por ao menos 35 mil dos 413 mil rio-branquenses.
Banhado pelo rio Juruá, o município de Cruzeiro do Sul registra o maior número de afetados pelos transbordos em 2021: 33 mil para uma população de 89 mil pessoas. No dia 20 de fevereiro, o Juruá alcançou a marca de 14,36 metros, superando em 12 centímetros a cheia histórica de 2017. Desde a última sexta-feira (26), os principais rios do Acre apresentam sinal de vazante.
Agora, toda essa água desce pelo curso dos rios, causando inundações nas cidades do estado vizinho, Amazonas. É o caso de Guajará, Eirunepé e Ipixuna, todas às margens do Juruá. No fim de semana, o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), visitou os municípios mais afetados pelas cheias.
As cheias dos rios que “nascem” no Acre, como numa lenta e progressiva onda, agora afetam as cidades no outro lado da Linha Cunha Gomes, que é o marco divisório entre Acre e Amazonas.  O alto volume de água nos rios Acre, Purus, Juruá, Envira e Tarauacá passa a afetar também centenas de moradores das zonas rural e urbana nos municípios ao sul e sudoeste amazonense.
Em Boca do Acre, no Amazonas, onde os rios Acre e Purus se encontram, a cheia atinge 20 mil pessoas. Quando os dois mananciais ultrapassam a cota de transbordamento, esse município amazonense tem todo seu perímetro urbano inundado. Famílias ribeirinhas também são afetadas. Além de terem as casas inundadas, quem mora na zona rural vê toda a produção de seus roçados submersos, além de perder animais, causando inúmeros prejuízos para sua sobrevivência.

Cidades inteiras submersas

Sena Madureira alagada (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Greenpeace)

Se, desta vez, as cidades localizadas na bacia do rio Acre não foram tão impactadas pelas inundações, o mesmo não se pode dizer das outras calhas. Sena Madureira, a terceira maior cidade acreana, teve 80% de seu perímetro urbano coberto pelas águas do rio Iaco, afluente do Purus. Mais de 27 mil dos 46 mil habitantes foram atingidos. Até a sede da prefeitura ficou com água pela metade. Essa foi a segunda maior cheia do Iaco, alcançando o nível de 18,35 metros na segunda-feira (21). A cota histórica é de 19,10 metros, ocorrida em 1997.
Desde janeiro, com a intensificação do inverno amazônico, a cidade de Tarauacá tem sido impactada pelo transbordamento dos rios Tarauacá e Muru. Ambos são conhecidos por suas elevações e vazantes abruptas. Quando as águas baixam e tudo parece ter voltado ao normal, voltam a transbordar, num fenômeno regional conhecido como repiquete. O município ficou com quase 90% de sua parte urbana debaixo d’água. Dos 43 mil moradores, 28 mil foram atingidos. O rio Tarauacá está em vazante, com o nível de 8,05 metros no sábado (27). No dia 20, chegou a 11,05 metros.
No último dia 24, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) visitou o Acre e sobrevoou a cidade de Sena Madureira. Ele não se contentou em ficar nos ares. Em terra, provocou aglomerações no estádio onde o helicóptero pousou, e ainda passeou em carro aberto pelas poucas ruas não inundadas. Tudo isso sem fazer o uso de máscara.
As aglomerações feitas pelo presidente ocorrem no momento em que o Acre opera no limite da lotação máxima de leitos para Covid. Segundo boletim do Sindicato dos Médicos (Sindmed), todos os leitos de UTI Covid do estado estão ocupados. Dados da Secretaria estadual de Saúde, apontam que até na sexta-feira (26), a taxa de ocupação das UTIs era de 96,2% e de 81,5% dos leitos clínicos. Dos 106 leitos de terapia intensiva, 102 estavam ocupados.

Estado está em colapso e em crise

População enfrenta desafios diários para garantir abastecimento (Sérgio Vale/Agência de Notícias do Acre)

O Acre tem um começo de 2021 com quatro crises simultâneas. O estado vive seu momento mais crítico em relação à pandemia da Covid-19, com explosão no número de pessoas infectadas e mortas pela doença. Cuidar dos contaminados se tornou ainda mais difícil se somado ao problema das enchentes, com milhares de desabrigados. Garantir alimento e água potável se tornou um desafio.
As chuvas ainda resultam no aumento dos casos de dengue, que vive um surto desde o começo do ano. Nestes dois primeiros meses, já são mais de 8 mil pessoas infectadas. E, para completar o drama acriano, uma crise migratória de pessoas que tentam deixar o Brasil pela fronteira com o Peru, mas estão sendo impedidas pelo país vizinho.
Por conta disso, uma rede de solidariedade em todo o país foi criada para arrecadar recursos e donativos. Enquanto monitora as chuvas que caem nas bacias dos rios do estado, as autoridades também estão de olho no comportamento do rio Madeira, em Rondônia. O volume de água no manancial tem impactos diretos sobre o Acre, já que seu eventual transbordamento pode encobrir trechos da BR-364, deixando o estado isolado do restante do país.
Em 2014, trechos da rodovia na região da Ponta do Abunã ficaram completamente submersos pela grande cheia do Madeira, impossibilitando a chegada de alimentos e combustíveis ao Acre. Desde então o Acre monitora com atenção o sobe e desce das águas do Madeira, onde estão as usinas de Santo Antônio e Jirau. Em Porto Velho, o Madeira estava em 15,75 metros na noite de sexta (26), já com a classificação de alerta máximo. A sua bacia apresenta instabilidade, com elevações e vazantes.

As “perturbações climáticas” na Amazônia

Cheia em Boca do Acre, no sul do Amazonas em 2015 (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Após a região ter sido afetada, em 2020, por um clima seco que levou estes mesmos rios a níveis críticos de vazante, por conta das águas mais quentes no Atlântico norte, agora o esfriamento do Pacífico provoca um volume elevado de chuvas, com as consequentes inundações.
Nos últimos 20 anos, o sul da Amazônia Ocidental chama a atenção por eventos climáticos extremos. Quando não são as grandes inundações, são as secas severas. Fenômenos como o El Niño e La Ninã passam a ocorrer com mais intensidade, e num espaço de tempo curto. Em 2016, um El Niño de forte intensidade atingiu quase toda a Amazônia, de Roraima ao sul do Acre na tríplice fronteira com Bolívia e Peru.
Naquele ano, o rio Acre chegou a um nível crítico, comprometendo o abastecimento de água potável para mais da metade da população do estado. Além da segurança hídrica, as estiagens mais longas e temperaturas altas são fatores essenciais para a propagação das queimadas. Tais condições climáticas contribuem para que o fogo feito em roçados se transformem em grandes incêndios florestais.
Segundo o ecólogo Foster Brown, da Universidade Federal do Acre (Ufac), a tendência é de que essas “perturbações climáticas” se intensifiquem nos próximos anos. As mudanças do clima na região, afirma ele, não são um fenômeno para o futuro, mas são vividas já agora.
“O que você pode dizer é que a chance de uma inundação destas aumentou em função de mudanças climáticas. Teremos chuvas mais fortes, secas mais fortes. Se a chuva mais forte vai ser amanhã, daqui a três anos, se vamos ter um evento fora do comum, eu não sei. Mas a tendência é essa”, diz Foster.

Desmatamento agrava situação

Gado em área desmatada no município de Apuí, sul do Amazonas
(Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

De acordo com o ecólogo da Ufac, estudos apontam o prolongamento da época seca – o verão amazônico – nos últimos anos. A quantidade de dias seguidos sem chuvas no sul da Amazônia, explica Foster Brown, pode ser resultado do aumento do desmatamento na porção mais leste da região. Com menos árvores, menor é a quantidade de vapor emitido para a atmosfera, que se transforma em chuva. As chuvas que chegam ao sul da Amazônia são trazidas pelos ventos da direção leste-oeste, oriundos do Atlântico.
“Sabemos que com o desmatamento mudamos a bomba biótica do solo, que faz esta transformação [de vapor em chuva]. Se você corta a floresta do Pará, de Rondônia e de Mato Grosso, você pode afetar quanto de vapor chega aqui e, consequentemente, quanto de chuva cai. Este fenômeno é preocupante porque você pode chegar ao que se chama colapso de floresta”, explica o pesquisador.
Se a derrubada da floresta na parte mais leste da região influencia o volume de água que cai no oeste, o desmatamento local vai definir a intensidade das inundações. As cheias são fenômenos comuns na Amazônia nos meses chuvosos. Com menos árvores em pé, é possível que elas ocorram em maior intensidade. As florestas, explica Foster, servem  como “amortecedor” das chuvas, evitando que mais água vá para o leito dos rios.
Portanto, com menos floresta, em especial nas margens, a tendência é de aumento no nível dos rios, já que menos água será estocada pelas árvores no solo. Exemplo disso é o rio Acre, cujas margens foram sendo degradadas ao longo dos últimos 40 anos para atividades agropecuárias. O rio depende diretamente das chuvas em suas cabeceiras para manter um nível alto ou baixo.
Sem sua mata ciliar preservada, o rio está mais propício a receber um volume maior de água das chuvas. Segundo Foster Brown, menos árvores por si só não explicam a intensidade da inundação. “Depende também da topografia, das características do solo. Não depende só da floresta, Lógico que fica mais acentuado quando não tem floresta. Sem floresta teremos a erosão, resultando em  muito sedimento no leito do rio, que pode agravar a cheia”, diz.

A realidade vivida pelos ribeirinhos

Mario Lopes da Silva pescando embaixo do mastro da Gameleira em Rio Branco
(Foto: Alexandre Cruz Noronha/Amazônia Real)

Pescador profissional às margens do rio Acre, Mário Lopes da Silva, 56 anos, conhece os movimentos de um manancial vítima do desmatamento de suas margens e da poluição causada pelo esgoto despejado sem tratamento. Para a Amazônia Real, ele mostra o peixe que acabara de pescar. Segundo ele, a fartura ocorre mesmo quando o rio está seco. “A gente pega surubim, jaú, pacu, cuiu. Quando o rio está seco pesco peixes maiores”, explica.
Mário Lopes costuma fazer suas pescarias na região central de Rio Branco, no conhecido Calçadão da Gameleira. As escadarias de concreto do local servem como referência para saber se o rio Acre está enchendo ou vazando. Cada degrau submerso ou exposto serve de referência. Outra aferição popular é a quantidade de balseiros que desce pelo rio e se acumula nas pilastras das pontes centrais. Balseiros é o nome dado aos galhos e troncos de árvores arrastados pelas águas.
Seis anos atrás, Mário Lopes não teria como jogar sua linha de pescar ali da encosta da Gameleira, árvore símbolo do surgimento da capital acriana. Em 2015, as águas do rio Acre invadiram o calçadão da Gameleira, assim como grande parte do perímetro urbano. Para evitar que uma das pontes fossem levadas pela correnteza, caminhões carregados com pedra foram estacionados nela.  Já em 2016, o pescador poderia ir de uma margem à outra andando, tão crítica foi a vazante do rio naquele ano do chamado “El Niño Godzilla”.
Com informações Brasil de Fato
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