Ciro Gomes: Bolsonaro está derrotado. A tarefa é reconstruir o Brasil

“Qualquer um de nós poderia derrotar Bolsonaro. Não é isso que precisa ser discutido”, enfatizou o ex-governador e ministro, criticando a política econômica fiscalista e reprimarizante.

116
Ciro Gomes em Seminário da Fundação Maurício Grabois e dirigentes do PCdoB

O ex-governador do Ceará e ex-ministro da Fazenda e da Integração, Ciro Gomes abriu os debates do Seminário: O Nacional-Desenvolvimentismo e o Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento, neste sábado (22), apontando os desafios do campo progressista para apresentar ao povo brasileiro um projeto nacional de desenvolvimento para o país.

“Seria criminoso considerar que nossa tarefa é derrotar Bolsonaro. Nossa tarefa é construir um projeto para o país”, afirmou ele, considerando a formação de uma Frente Ampla para superar o atual governo e o desmonte do estado brasileiro. Na opinião do cearense, Bolsonaro já está derrotado, pois tem a rejeição de 75% do povo brasileiro. “Qualquer um de nós poderia derrotar Bolsonaro. Não é isso que precisa ser discutido”, enfatizou.

A sétima mesa do seminário, sob o tema “Reorientar a economia financeirizada para uma economia produtiva” foi mediada pelo economista da Fundação Maurício Grabois, Aloisio Sergio Barroso, e trouxe ainda os professores de economia José Carlos de Souza Braga (Unicamp); José Luís Oreiro (UnB), e Maryse Farhi (Unicamp). Oreiro participou da elaboração do programa de Ciro nas últimas eleições presidenciais.

Ciro salientou que, embora não seja economista, estuda pelo olhar político e observa as evidências empíricas, sem deixar de homenagear a ciência econômica. Disse que costuma fazer provocações, para não aceitar simplificações que vê se espalharem pelo debate afora.

Ele começou atacando a “ilha solitária” que o Brasil se tornou ao fazer apologia no governo, na imprensa e na academia da “versão mais tosca do neoliberalismo”. “Nenhum intelectual sério apoia mais a mitologia do Consenso de Washington. Nem [a Escola de] Chicago, principalmente depois que a pandemia deixou contornos trágicos na economia de todo o mundo”, destacou.

“As interdições fiscais de uma pseudo-austeridade se mostraram uma mentira”, afirmou ele, atacando a macro-política econômica brasileira toda baseada em austeridade fiscal e controle de teto de gastos. Ciro ainda é provocativo ao defender que, mesmo a retórica progressista, legitima essa política ao não enfrentá-la e mantê-la em seus governos. “Este é um fracasso sobre o qual precisamos refletir”, disse, sempre enfatizando que se coloca como parte desse processo.

Ciro lamentou como os governos progressistas e de esquerda não foram capazes de conscientizar e mobilizar o povo brasileiro para a defesa de seus direitos, quando tinha todos os instrumentos para isso. Ele mencionou a mobilização recente do povo colombiano contra a reforma tributária, em plena pandemia. “Vocês imaginam que vamos conseguir sensibilizar o povo brasileiro para uma lógica tributária ainda pior que a que temos hoje? O povo brasileiro não se mexeu nem com a reforma da previdência, que aumentou privilégios militares e concentrou ainda mais renda no setor financeiro”, questionou.

Para ele, reformas como essas são um verdadeiro “assalto patrimonialista, que transformam o estado brasileiro numa ferramenta de transferência de renda do setor produtivo para alguns rentistas”. Ele testemunha sobre sua ruptura com o PSDB, atacando como o Plano Real nunca foi um programa para o desenvolvimento do Brasil, “como fraudou FHC”. Para ele, aquela política econômica serviu apenas à favorecer o consumismo baseado no dólar baixo, que deixou o “povo feliz”, mas é insustentável economicamente.

Ao apontar premissas para o desenvolvimento, o ex-governador considera fundamental que a condução dessa política seja feita por “estados fortes e energizados”, sublinhando que não está falando de “estados totalitários ou autoritarios”. “Qual economia está correta? A China ou o Chile? A Argentina ou a Coreia do Sul?” Ele se refere a nações com capacidade de investimento alto para intervir na realidade do povo. “Nunca aconteceu infraestrutura em país nenhum sem investimento do estado!”

Para ele, o Brasil resolveu criar um caminho para o investimento em infra-estrutura “com base em um expediente que nunca houve no processo civilizatório”. “O Brasil diz que vai financiar o desenvolvimento com o dinheiro dos outros”, diz, referindo-se às tentativas frustradas de atração de investimento privado.

O velho desenvolvimentismo pede atualização tecnológica

Por outro lado, Ciro considera importante perceber que algumas premissas do velho modelo nacional-desenvolvimentista não são mais praticáveis. Para ele, o nível avançado de tecnologia que o mundo passou a experimentar nas últimas décadas faz com que não haja chance de nenhuma nação se desenvolver sem a centralização da inteligência tecnológica. Enquanto isso, ele descreve a economia brasileira reduzida a “um buraco de mineração, petróleo e minério barato” e uma grande fazenda de soja e vaca.

Para ele, esse quadro de retrocesso na industrialização brasileira, (de 35% da participação industrial no PIB em 1980, para 9%, hoje), é fruto de 40 anos da maior taxa de juros do mundo. Ele critica, inclusive, os governos de esquerda que mantiveram o alto patamar de juros básicos. “A menor taxa que estamos pagando, nesse período, é, justamente, com o fascista Bolsonaro”, declarou, referindo-se às decisões recentes do Copom para a taxa Selic.

“Nunca fomos capazes de abrir discussão sobre isso, mesmo quando hegemonizamos o governo. Eu não perdôo isso. Iludir o povo com a miragem dos ciclos de consumismo pela manipulação da taxa de câmbio, que serviu para abrir um buraco nas contas externas”, criticou.

Segundo sua leitura, o governo da esquerda assumiu em 2003 com uma taxa de câmbio a R$ 9 e derrubou a R$ 1,75, aumentando o poder de compra de importados em quatro vezes. “Quando fica mais barato ir à Miami, que a Salvador, você destrói sua estrutura produtiva interna. Tudo dolarizado vem de fora”.

Ciro considera que sempre houve uma pressão estrangeira pela dolarização da economia, que se expressa na “indexação criminosa” do IGPM, “a taxa de 32% de inflação no atacado, que se reflete no aluguel do povo”.

“A elite sabe, ante nossa omissão de politizar o povo, que não vamos ganhar a parada”, disse ele, sobre a incapacidade de conscientizar e mobilizar a sociedade para as reformas e privatizações que se acumulam toda semana no governo Bolsonaro.

Ele também criticou a fragilidade da crítica da esquerda ao teto de gastos. “Qualquer um real para investir na vida do povo está vetada por 20 anos”, disse ele, enfatizando que, para começar a resolver qualquer problema de desenvolvimento, é preciso revogar o teto de gastos.

“A direita não vai vir com um tarado como o Bolsonaro, porque aprenderam nesse tempo. Virão com o poder econômico que Bolsonaro interpreta com grande canalhice. É ele que temos que derrotar”, explicou.

Junto com o seminário, a editora Anita Garibaldi com a Fundação Maurício Grabois lançaram, no último dia 12, o livro “Pensamento Nacional-Desenvolvimentista”, coletânea de 31 textos de autores como Getúlio Vargas, Miguel Arraes, Roberto Simonsen, Álvaro Vieira Pinto, Nelson Werneck Sodré, Guerreiro Ramos, Haroldo Lima, Anízio Teixeira, Cláudio Campos, Nilson Araújo de Souza, recuperando a atualidade do nacional-desenvolvimentismo e sua importância decisiva na superação dos graves problemas do país – um abismo a que chegamos após o abandono completo da trilha empreendida a partir de 1930.