Dia Mundial do Meio Ambiente: expoente da arquitetura sustentável, uma entrevista com Paula Figueiredo

O mundo tem que deixar o carro como segundo plano.

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Acervo pessoal/Paula Figueiredo

Paula de Figueiredo Crivelenti Walther Portes, se formou arquiteta pela Universidade de Mogi das Cruzes em 1981. Seus projetos são conhecidos pela prática sustentável, que procuram manter o máximo de conforto com o menor impacto ambiental. Nesta entrevista, realizada em seu escritório em Indaiatuba, Paula fala da essência da sua arquitetura, e da importância do meio ambiente em seus projetos.

Pergunta. Como a NBR 15.575 contribui para a valorização da arquitetura na construção civil?

Resposta.  A arquitetura está passando por normatizações necessárias, são ações em benefício do ser humano e do planeta, sem elas fica difícil termos uma bússola para um futuro sustentável.

“Minha grande realização foi ter criado junto com meu marido nossos dois filhos, se você me perguntar de qual eu gosto mais, eu responderei, gosto de cada um com suas qualidades e seu jeito. Assim gosto de todos meus projetos pois em cada um eu tive um conhecimento específico e um aprendizado”.

P. Construções nas quais as instalações prediais se autorregulam é um cenário para as obras do futuro. Como é possível integrar esses projetos com o meio ambiente?

R.  Existem várias leis de uso do solo que podem beneficiar a natureza, as taxas de áreas verdes em grande maioria dos municípios brasileiros é alta e basta ser seguida. Interessante ver as cidades melhor planejadas com uma arborização que causa bem-estar para sua população.Vejamos o caso de Indaiatuba SP que tem um Parque Ecológico dando vida para a cidade, a qualidade de vida é altíssima. O projeto foi do arquiteto Rui Otake, eu pessoalmente gosto muito deste projeto dele.

P. A construção civil impacta no aquecimento global. De que forma a arquitetura pode contribuir para diminuir esse problema ambiental?

R. Estudos mostram que construções bem projetadas, com conforto térmico, boa insolação e iluminação, assim como espaços com muito verde podem causar bem menos impacto ambiental, é o caminho que precisa ser seguido para não fazermos das cidades lugares caóticos e inabitáveis, está na mão dos arquitetos e bons profissionais da área.

P. É possível afirmar que existe uma certa resistência dos brasileiros em aceitar a ecoeficiência: a utilização de resíduos de construção e demolição quando vão construir ou reformar?

R.  São muitos Brasis num único país. Há uma população que habita em bairros periféricos que usa de muita criatividade na construção, se esta população for bem informada ela vai aceitar inovações feitas com resíduos, mas precisamos informar esta população. Acredito que muitas ações sociais de profissionais arquitetos poderão modificar este quadro, temos que sair de nossos escritórios e visitar esses bairros levando informação aos moradores e suas comunidades . Temos que arregaçar as mangas e mudar este quadro atual. Só o conhecimento transformará os hábitos e novos hábitos mais sustentáveis surgirão. Gosto muito do trabalho que a arquiteta Carina Guedes está fazendo com um grupo de mulheres na periferia de Belo Horizonte. Carina orienta mulheres a trabalhar na construção e ampliação de suas residências ensinando a elas o ofício, imagina esta ação sendo feita em todo país?

P. O novo urbanismo, é um movimento que prioriza o pedestre, áreas de uso misto. Como Indaiatuba poderia melhorar a qualidade de vida da população a partir dessas premissas?

R. O mundo tem que deixar o carro como segundo plano, o comportamento indica que precisaremos nos deslocar menos no futuro dada a facilidade de comunicação vamos trabalhar parcialmente em nossos lares, isso a pandemia da covid-19 está nos ensinando. Então as áreas centrais das cidades podem se transformar em locais de trabalho, lazer e moradia. A recuperação das áreas centrais de Indaiatuba trariam um novo uso, São Paulo começou a fazer a revitalização do seu centro histórico e ficará belíssimo em alguns anos, podemos seguir os mesmos passos  e aqui é bem mais fácil pelo tamanho da população. Indaiatuba tem tudo para se tornar ainda melhor. Eu tenho um carinho enorme por esta cidade e quero vê-la cada vez melhor.

Acervo pessoal/Paula Figueiredo

P. Você é entusiasta da arquitetura vernacular. Como essa vertente influencia seus projetos?

R. Os estudos de neuroarquitetura feitos por neurocientistas e psicólogos juntamente com arquitetos e urbanistas demonstram que a influência do verde nas construções  é fundamental assim como espelhos d’água, tudo que remete a natureza. Somos uma espécie que já viveu muito em contato com a natureza  se nos afastamos dela adoecemos, é uma questão vital para o ser humano. Meus projetos devem causar bem estar, isso é fundamental para mim.

P. Como você avalia a situação das profissionais arquitetas e urbanistas atualmente?

R. Vejo com muito respeito, acredito que estamos ganhando cada vez mais mercado , as profissionais estão nos canteiros de obra, estão fazendo pesquisas escrevendo livros e ganhando prêmios. Quando me formei quarenta anos atrás era bem diferente, era um universo masculino, mas mudou bastante.

P. Qual projeto considera o mais marcante na vida da arquiteta Paula Figueiredo? Por quê?

R. Minha grande realização foi ter criado junto com meu marido nossos dois filhos, se você me perguntar de qual eu gosto mais, eu responderei, gosto de cada um com suas qualidades e seu jeito. Assim gosto de todos meus projetos pois em cada um eu tive um conhecimento específico e um aprendizado.