Dirceu Magri Miscelânia

Fake do Fake: mais do mesmo!

Dirceu Magri
Escrito por: Dirceu Magri

Por Dirceu Magri – Admitam ou não, a dissimulação é um dos constitutivos da natureza humana. Antes mesmo de ensaiar seus primeiros passos, o menino, já não mais choraminga para ter sua fome saciada, mas para obter atenção. Tempos depois, correndo pelos campos, disfarça, inventa, fantasia desejos e vontades e, para satisfazê-los, aprende a fazer uso da máscara social.

Não há ingênuos nesse quesito! Ainda pequeno, o menino desenvolve com insuperável habilidade a dissimulação. Por uma razão ou outra, finge gostar ou não gostar. Os verdes anos obscurecidos pela poeira do tempo, e ele torna-se mais cruel. O interesse, grande vórtice que move o menino e o homem, adquire status bastante pessoal. Não raro, menino e homem voltam o olhar oblíquo para o próprio umbigo, que subtrai não só a visão periférica, mas faz com que ambos sequer enxerguem as pessoas à sua frente. A eles, chamemos agora egocêntricos, egoístas.

Os interesses, grande motor social, expandem-se, e seus tentáculos, antes circunscritos ao privado, ampliam-se absorvendo o público. As duas bandeiras – privada e pública – confundem-se, razão pela qual, a canalha política trata o público como se fosse coisa sua, manipulando-a em função de seus próprios interesses e em benefício de seus asseclas. Estes, como moscas no mel, agem nos bastidores, executando, muitas vezes, o serviço sujo. Não à toa os portugueses cunharam o aforismo: “Moscas apanham-se com mel, não com fel.”

Nessa nossa Era do Caos, um desses servicinhos sujos é a criação de notícias falsas, algo do qual tanto falei aqui. Afinal, que mal tem? Uma mentira aqui, uma calúnia ali, um boato acolá, ora, isso não mata ninguém! A polarização dos interesses, sob farisaísmo ideológico, tornou-se um grande negócio. Ambos os lados fazem uso do mesmo garfo, mas juram provar pratos diversos. Ao fazê-lo, não fazem nada além de dissimular; sofistas, utilizam-se de argumentos especiosos na tentativa de convencer e cooptar a massa para projetos que visam a satisfação de seus interesses. Nessa lógica, melhor e mais eficiente que matar é inventar narrativas, na tentativa de vergastar o opositor.

Ao leitor nada mais resta que desconfiar de tudo e de todos. Houve um tempo em que as pessoas davam certo crédito à imprensa, contudo, hoje, até mesmo a dita grande imprensa deixou-se corromper. Corrigindo-me: corrompeu-se há muito tempo, porém agora o faz de modo descarado.

A notícia, publicada no site IssoÉNotícia, informa sobre um levantamento realizado pela Associação dos Especialistas em Políticas Públicas do estado de São Paulo (AEPPSP), que, a partir de critérios elaborados por um grupo de estudo da Universidade de São Paulo (USP), o Monitor do Debate Político no Meio Digital, identifica os maiores sites de notícia no Brasil que disseminam notícias falsas e boatos. Estes, uma vez jogados nas redes sociais têm efeito semelhante ao de um rastilho de pólvora.

A notícia é velha, de janeiro do ano passado, mas como os interesses não se avelhantam, ela foi republicada e exaustivamente compartilhada por leitores ingênuos e sobretudo por maliciosos dissimulados de cidadãos ciosos em esclarecer sobre a verdade dos fatos – ou pós-verdades.

Ocorre que a notícia elenca uma série de características comuns aos sites que propagam notícias falsas e, dentre elas, as três primeiras chamaram-me a atenção pela obviedade, mas vá lá:

  1. Foram registrados com domínio.com ou.org (sem o.br no final), o que dificulta a identificação de seus responsáveis com a mesma transparência que os domínios registados no Brasil.
  2. Não possuem qualquer página identificando seus administradores, corpo editorial ou jornalistas. Quando existe, a página ‘Quem Somos’ não diz nada que permita identificar as pessoas responsáveis pelo site e seu conteúdo.
  3. As “notícias” não são assinadas.[1]

Isto posto, bisbilhotando aqui e ali, descubro que tinha sob os olhos uma fake news sobre fake news, só que agora em uma página identificada! Vejam:

Monitor do debate político no meio digital a partagé sa publication.

23 février ·

Uma matéria de janeiro de 2017 do IssoÉNoticia sobre um suposto estudo da USP foi reproduzida em março pela Esquerda Valente e agora mais uma vez pelo blog Contraponto.

Atualizando o alcance das matérias sobre o caso:
1) IssoÉNotícia: 138 mil compartilhamentos
https://www.issoenoticia.com.br/…/projeto-da-usp-lista-10-m…
2) Contraponto: 84 mil compartilhamentos
http://www.contraponto.blog.br/artigos/…/mbl-noticias-falsas
3) Pensador Anônimo: 2 mil compartilhamentos
https://pensadoranonimo.com.br/mbl-e-o-maior-difusor-de-no…/

Identificamos outras 5 fontes que somam menos de mil compartilhamentos. O site Esquerda Valente tirou a matéria do ar.

Mais uma vez tentamos esclarecer o caso.

Monitor do debate político no meio digital

10 mars 2017 ·

No fim de janeiro circulou uma matéria da IssoÉNotícia sugerindo que havíamos feito um levantamento dos 10 maiores sites de notícias falsas do país. Esclarecemos nesta página que nunca havíamos feito tal levantamento que tudo passava de um grande mal-entendido. O site boatos.org deu uma nota sobre a notícia falsa (http://www.boatos.org/…/usp-lista-10-maiores-noticias-falsa…) e mais tarde a SuperInteressante elegeu o caso como uma das maiores notícias falsas da internet. O site corrigiu a matéria atribuindo o levantamento à Associação dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo (AEPPSP) que teria se embasado em nossos estudos (todos publicados nesta página).

Ontem a página Esquerda Valente reacendeu a polêmica publicando uma matéria com a manchete “MBL é o maior difusor de notícias falsas, conclui pesquisa da USP” (http://aesquerdavalente.blogspot.com.br/…/mbl-e-o-maior-dif…). Hoje o mesmo Esquerda Valente insistiu e soltou outra matéria relacionada (http://aesquerdavalente.blogspot.com.br/…/estudo-da-usp-cla…) que levou a AEPPSP a solicitar que a menção à associação fosse retirada da matéria com a seguinte explicação: “Retiramos a publicação do ar depois da transformação de um post que realizamos em uma notícia falsa. A disseminação dessas informações nos traz muitos inconvenientes.”

Mesmo com todo esforço em desmentir o caso, a matéria da Esquerda Valente sobre o suposto estudo chegou a mais de 45 mil compartilhamentos e requentou a matéria de janeiro da IssoÉNotícia que chegou a 101 mil compartilhamentos.[2]

 

Não bastassem os esclarecimentos, a notícia pipocou na última semana ao sabor dos interesses. Por isso, leitor, não importa a banda em que toque, desconfie sempre!

[1] https://www.issoenoticia.com.br/artigo/projeto-da-usp-lista-10-maiores-sites-de-falsas-noticias-no-brasil

[2] Trechos extraídos da página do facebook do Monitor do Debate Político no Meio Digital.

Imagem: Reprodução

Sobre o autor

Dirceu Magri

Dirceu Magri

DIRCEU MAGRI é mestre e doutor em literatura francesa pela Universidade de São Paulo. É membro da Société Française d’Étude du Dix-Huitième Siècle (Sfeds) e editor da Revista Non Plus. É autor de De Borboletas e colibris em sobrevoo: a presença francesa nas crônicas machadianas (Editora FAP-UNIFESP, 2016) e pesquisador na área das relações literárias França-Brasil. Professor Visitante, leciona Língua e Literatura Francesa na UFV (Universidade Federal de Viçosa).

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