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Dirceu Magri Miscelânia

Homo stupidus stupidus stupidus sapiens

Dirceu Magri
Escrito por: Dirceu Magri
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Por Dirceu Magri – Opinião, cada um tem a sua. Contudo, não importa qual seja ela e o modo como você se expresse, é certo que você será atacado por todos os lados, como se fosse um inimigo. A verdade óbvia de nossos dias, marcados pela polarização e expressada por Joshua Greene em Moral tribes: emotion, reason, and the gap between us and them.

Na obra, Greene, professor de neurociência na Universidade de Harvard, une neurociência, filosofia e psicologia ao tentar mapear nosso cérebro e explorar como as intuições éticas se manifestam no mundo contemporâneo. Greene pfrtgropõe que os seres humanos têm uma tendência instintiva e automática (embora limitada) para cooperar com outros membros de seu grupo social (eu vs. nós) com base na imagem da Tragédia dos Comuns. Mas, em questões relativas à harmonia entre vários grupos (nós contra eles), intuições automáticas são problemáticas; e Greene chama isso de “tragédia da moralidade do senso comum”. A mesma lealdade que permite aos membros de um grupo cooperar em sua comunidade leva à hostilidade entre as comunidades.

Eis uma das razões pela qual temos dificuldade em coexistir na diferença: nos cérebros estão programados para estruturar o mundo entre “nós” vs. “eles”, donde uma sociedade contemporânea polaridade ao extremo em que aqueles que não pensam como nós são – e devem – ser hostilizados, vergastados das mais diferentes maneiras. O resultado é medo, frustração, insegurança e um enorme ceticismo.

Por sua vez, Vittorino Andreolli, psiquiatra e escritor italiano, ao refletir sobre a sociedade contemporânea afirma que “vivemos em uma sociedade dominada por frustrações. A sensação predominante é a de estar em um ambiente no qual a pessoa se sente excluída, a pessoa se sente insegura, a pessoa está com medo. Assim, a frustração se acumula, o que então se torna raiva. E a raiva, sabe o que isso traz? Isso leva ao desejo de quebrar tudo. Nosso tempo não é violento, é destrutivo.”

Veja a curta entrevista que o escritor concede à jornalista Flavia Piccinni, quando do lançamento de seu livro Il silenzio dele pietre na Feira do Livro de Turim, e publicada no jornal La Repubblica em 15/05/2018.

Você falou sobre violência e destrutividade. Qual a diferença?

A violência visa produzir danos aos outros. Alguém é ciumento porque há outro que tirou seu objeto do amor, e se vinga violentamente: ele o mata. Mas, tendo cumprido esse propósito, a violência declina.

E a destrutividade?

Em vez disso, a destrutividade é a tendência a causar dano aos outros, mas também a si mesmo. Eles matam a esposa, filhos e se matam. É um pequeno apocalipse. E é muito comum nas famílias hoje.

Estamos vivendo um tempo destrutivo para a política também?

Há o desejo de fazer guerra, mascarar situações pessoais, fabricar armas, alimentar os arsenais nucleares. Existe ar de guerra e a guerra é destrutividade. Repito: a destrutividade é a característica fundamental do nosso tempo.

Quem são os outros?

Frustração e insegurança. Nós somos a sociedade do medo. Domina a cultura do inimigo.

O que isso envolve?

Isso mata a esperança e a confiança e promove o isolamento.

E então?

Você sabe, houve o período da razão, das Luzes, das grandes ideologias e agora …

Agora?

Agora temos o período de estupidez.

Por que você diz isso?

Porque governa a irracionalidade! O absurdo domina. Não há senso de ética. Pior do que isso … E como consequência da estupidez, temos a regressão para o homem da movimentação.

Lembrei-me de que pertencíamos ao homo sapiens sapiens.

Não! Neste momento histórico em que o absurdo domina, somos o homo stupidus stupidus stupidus.

Por que razão?

Todo mundo pensa em si. Ninguém pensa que somos um país. E isso é estupidez. Se alguém hoje não é stupidus nesta sociedade, não pode viver.

Como podemos nos salvar?

Fazendo como protagonista do meu romance, que entra em um mundo lindo onde não há comandantes. Onde não há o homem. A gênese parou no quinto dia, porque o Pai eterno é muito inteligente e em uma parte do mundo ele não fez o homem.

Onde a estupidez se concentra hoje?

No poder. Hoje, o poder é, por definição, estúpido. Eu uso o poder como um verbo: eu posso, então eu faço. E eu faço porque eu posso. O poder é o aspecto mais claro da estupidez.

Você se considera um homem de poder?

Não. Eu escrevi sobre os Ninguéns, aqueles com N maiúsculo, porque nesta sociedade há alguém que não é estúpido, e eles são os Ninguéns. Eu sou um Ninguém porque eu não conto nada.

Mas você conta …

Sendo ninguém, não tenho que aceitar compromissos. Ninguém é quem está lá, mas é como se não estivesse. Eu amo esta sociedade, feita pelas pessoas bonitas que não contam para nada.

Você não conta, mas há alguém, Gene Gnocchi, que o imita na televisão.

Eu o vi recentemente. Eu considero humor e ironia como defensivos. Eles ajudam as pessoas a sobreviver. Eu amo os loucos, considero a loucura estupenda, humana, e o que sempre procurei foi o homem dividido. E eu sempre o procurei com uma arma, a ironia. Embora eu nunca o tenha conhecido, considero Gene Gnocchi muito bom.

Anos atrás, com Andrea Purgatori no Huffington Post, você fez um diagnóstico para o nosso país até agora histórico. Podemos atualizá-lo?

A Itália só piorou porque nunca foi curada.

E os italianos?

Somos masoquistas felizes: vivemos em constante e sério perigo econômico, mas somos capazes de nos divertir.

E então?

Estamos frustrados. Cheios de raiva. Darwin falou do instinto, mas estamos regredindo para o momento da impulsividade. Olhe ao redor.

Eu o faço todos os dias.

Veja: agora não há ética, mas existem comitês de ética. O ego domina e não nós. Eu quero isso. Eu quero isso, eu quero isso, eu quero isso.

Neste contexto, você acha que o aumento da violência contra as mulheres é significativo?

Antropologicamente, a mulher sempre foi a presa do homem. Salomão, que era a sabedoria do povo, disse: “Mais terrível do que a morte é a mulher, só o homem temente a Deus pode escapar dela, enquanto o pecador está preso a ela, enganado.”

Depois, o que aconteceu?

Então veio Cristo, que respeitava as mulheres. Havia a cultura que meticulosamente dava valor às mulheres, à feminilidade, à sua resistência. Mas se nos precipitamos para o homem pulsional, que dirige, e a mulher volta a ser a presa.

Outro dia, em Cannes, 83 atrizes protestaram silenciosamente contra a indústria cinematográfica e a discriminação de gênero. O que você acha desse movimento global que é o #metoo e das consequências inevitáveis ​​que ele terá no presente?

A mulher ainda precisa de um movimento forte. Ainda me lembro de ter participado da histórica marcha feminina do Central Park até a Broadway. Mas hoje as mulheres não têm que cometer o erro do feminismo nos anos setenta.

O quê?

Excluir os homens. Ter feito isso no passado não permitiu que ele crescesse. O movimento, como disse aquela grande mulher que era Ida Magli, devemos fazer juntos. Caso contrário, o homem permanecerá culturalmente desapegado. Ele continuará sendo um homúnculo.

Como você se sente?

Eu sou um infeliz alegre.

Você pode me explicar melhor?

Hoje falamos apenas de felicidade, mas a felicidade é algo individual. É um sentimento positivo e agradável que pertence ao eu. A alegria pertence a uma condição que nos preocupa: o ego junto com o outro. É transmitido e recebido, mas sempre diz respeito a um grupo. Hoje, apenas os imbecis podem ser felizes.

Por que razão?

Nós pertencemos a uma sociedade que é muito complexa para não considerar a condição dos outros. Como se pode ser feliz se todos os dias vemos pessoas sofrendo?

Eu não sei.

Eu não considero muitas pessoas, mas aquele homem de Nazaré, aquele homem com H maiúsculo, que ensinava alegria. Mas hoje tudo é diferente.

Em que sentido?

Hoje não há mais os senhores da terra, dos edifícios, mas os da humanidade. Avram Noam Chomsky diz isso bem.

Quem são esses mestres?

A economia depende de cerca de 20-25 pessoas. A maioria dos Ninguéns luta para viver, enquanto alguns não sabem viver porque têm muito.

Por exemplo?

Mark Zuckerberg! A próxima vez, olha bem: perdeu 100 bilhões em um dia. E você sabe o que ele disse? “Não é nada para mim.” Veja, eu fico infeliz e um pouco zangado. E é bom.

Por que razão?

Porque enquanto eu me indignar, continuarei a escrever.

Imagem: Reprodução

Sobre o autor

Dirceu Magri

Dirceu Magri

DIRCEU MAGRI é mestre e doutor em literatura francesa pela Universidade de São Paulo. É membro da Société Française d’Étude du Dix-Huitième Siècle (Sfeds) e editor da Revista Non Plus. É autor de De Borboletas e colibris em sobrevoo: a presença francesa nas crônicas machadianas (Editora FAP-UNIFESP, 2016) e pesquisador na área das relações literárias França-Brasil. Professor Visitante, leciona Língua e Literatura Francesa na UFV (Universidade Federal de Viçosa).

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