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Dirceu Magri Miscelânia

A ignorância e a depuração do gosto

Dirceu Magri
Escrito por: Dirceu Magri
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Por Dirceu Magri – Treslendo a biografia de Machado de Assis escrita por R. Magalhães Júnior, observei que as referências do autor às crônicas machadianas. As alusões, no caso, eram as cantoras de ópera que empolgavam o público carioca na segunda metade do século XIX. Um contumaz leitor do Bruxo do Cosme Velho, sem dúvida há de se lembrar da Candiani, que arrebatava almas e corpos e fizera com que os cavalos de seu carro fossem substituídos por rapazes saídos de um fã clube entusiasta. Depois, vieram a Stoltz, a Charton, a Lagrange, a Casolini, a La Grua… Todas passaram pela pena de Machado.

Portanto, não há razão para que eu não fale de nossas atuais celebridades, ainda que sob os auspícios da canção: descendo a ladeira. Ora, o assunto me veio ao espírito depois de ler a publicação de um amigo. Nela, havia uma lista dos cantores que costumávamos ouvir nas décadas oitenta e noventa e o que se costuma ouvir hoje. Come de praxe, o mais interessante nesse tipo de comparação é a opinião dos internautas, em geral, marcada por profunda obtusidade. E, nesse caso, não foi diferente. Abstive-me de qualquer comentário, haja vista tratar-se de uma página pessoal e não conhecer o autor do comentário que me leva a essa rápida reflexão.

Pois bem, em consonância à polarização e ao vitimismo atual, um jovem tascou a seguinte pérola: “Isso só mostra que a arte acima de tudo não tem a necessidade de ser bela, mas de servir como voz além de entreter. Incomoda tanto assim aos privilegiados que os marginalizados ganhem voz? As vanguardas, ainda que movimentos elitistas, não ensinaram nada para a literatura? Triste quem pensa pequeno…”.

Ora, à medida que os anos avançam o respeito à juventude é algo que não podemos deixar de ter em mente. Contudo, respeitar não implica qualquer deferência à sobeja atrofia intelectual de nossos dias, em que o atraso cultural é uma doença quase que universal. Não sei se o jovem em questão, cujos neurônios parecem padecer de estiolamento igual ao velo de vênus próprio de sua idade, estaria disposto a me entender, mas vamos lá: primeiro, ele afirma que “a arte não tem a necessidade de ser bela”. Não tiro sua razão, mas peço que se atenha às sábias palavras de filósofos como Sri Ram, por exemplo, para quem a evolução nada mais é que a depuração do gosto. E vou mais longe, meu caro efebo:  a arte é um caminho de conhecimento à procura do Belo, do imutável, e a música que você defende, meu caro, está fadada às lixeiras das gravadoras, preservando-se, muito raramente, na cabeça de pessoas habituadas à leitura de cartilha cujo conselho é a repetição, e impedimento maior, a reflexão, o questionamento.

Nem toda expressão cultural pode ser chamada de arte, mancebo! A arte, já afirmava Schopenhauer, é “a exposição de ideias”, “o modo de consideração das coisas independente do princípio da razão”. Que ideias veiculam a música que você diz representar os excluídos, que voz concedem elas aos marginalizados? O relativo direito ao contorcionismo enquanto se afirma ser uma vadia todo dia? Arte é algo que toca a universalidade humana, revela-se como inspiração e dá ao homem a experiência subjetiva de reconciliar-se com a natureza e a liberdade, afirmava Kant.

A liberdade da qual fala Kant não é definitivamente o direito à lascívia pura e simplesmente. E, já que reclama o fato de as vanguardas não terem ensinado nada à literatura, aconselho-o a ler Sade. Em Justine ou Os Infortúnios da virtude, Sade não só faz uma apologia ao crime, como explora de forma exponencial a crueldade e as liberdades do corpo como do espírito e, se não me falha a memória, lá, caro mancebo, Sade dedica três ou quatro páginas às vantagens de se dar o cu. Como vê, a literatura foi além das vanguardas afeitas aos grafites às quais provavelmente se refere.

E mais, meu jovem: nota-se em sua fala total desconhecimento do que se passou há apenas uma década! Falta de leitura, suponho! Os privilegiados que condena por gostarem de Zé Ramalho, Gal Costa, Milton Nascimento, Reato Teixeira, legião Urbana, Caetano, se não sabe, meu caro jovem, lotavam estádios nas décadas de oitenta e noventa; eram jovem sonhadores, assim como você, mas eram filhos de operários e, detalhe, a grande maioria sequer pode frequentar uma universidade, pois heroicamente tinha que defender seu bocado de pão. E, mais um detalhe: não se faziam de vítimas, lutavam, assim como os que vieram logo depois lutaram pelas “diretas já”.

Ah!, então não havia privilegiados! Sim, havia! Muitos, inclusive, marcharam as trilhas da política e tornaram-se mais privilegiados ainda; hoje, perfazem as fileiras de nossa elite política, partidária de foros privilegiados, direitos muitos, mas quase nenhum dever!

É evidente que não são esses os privilegiados que alfineta. Em seu relativizado discurso, nota-se que lê a cartilha de forma um tanto estúpida e não se dá conta de que a mesma elite que defende, acreditando tratar-se de representantes dos marginalizados é aquela que escolhe suas músicas. E mais: Platão, na República, alertava para a qualidade da música que os governantes davam às pessoas, sem falar, é claro, em Plutarco, que já afirmava que música ruim e canções grosseiras engendram licenciosidade.

E, por fim, meu jovem: não maldiga a literatura, leia Sade e ouça boa música.

Imagem de capa: Reprodução

Sobre o autor

Dirceu Magri

Dirceu Magri

DIRCEU MAGRI é mestre e doutor em literatura francesa pela Universidade de São Paulo. É membro da Société Française d’Étude du Dix-Huitième Siècle (Sfeds) e editor da Revista Non Plus. É autor de De Borboletas e colibris em sobrevoo: a presença francesa nas crônicas machadianas (Editora FAP-UNIFESP, 2016) e pesquisador na área das relações literárias França-Brasil. Professor Visitante, leciona Língua e Literatura Francesa na UFV (Universidade Federal de Viçosa).

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