Dirceu Magri Miscelânia

Juventude sem escola

Redação
Escrito por: Redação

Por Dirceu Magri – Quem já leu Machado de Assis e especulou suas opiniões sobre a crônica, conhece de cor e salteado o bordão de que o gênero é a reunião do útil e do fútil. Ora, Machado afirmava ter o folhetim (a crônica) nascido do jornal, donde a união agradável dos adjetivos supracitados. Lesse em nossos dias, o Bruxo do Cosme Velho certamente se depararia com a degenerescência da agradável futilidade.

Hoje, por exemplo, dou de olhos com as notícias mais lidas no site da autointitulada maior empresa de notícias do país: “Exausta e sem ‘perereca’: Luciana Gimenez explica 5 fotos do Instagram”, “Flávia Alessandra sobre sexo na piscina: ‘Uma delícia!’”, “Cláudia Raia lembra primeira vez com o namorado da irmã”, “Herdeiros do Maksoud Plaza brigam por causa de comida e roupa lavada’. Agora, diga-me você leitor: o fútil, o que é? Está bem, entendi! Não é preciso repetir!

O superficial, o leviano, o frívolo, a conversa de botequim… ora, isso é para encaixar uma ironia, um riso qualquer entre a empáfia da manchete da primeira página e a seriedade da notícia, não subjugá-la! Por que razão, pergunto, o leitor resolveu fazer do superficial, do pueril e sem importância o prato principal de sua refeição?

Lá embaixo, perdida no espaço antes reservado ao folhetim, eis que encontro uma noticiazinha de cara amarrada e apertada ao lado do depoimento de uma médica que largou a medicina tradicional e aderiu à ginecologia natural. Ali, encontro minha resposta sisuda. Trata-se de uma matéria sobre a evasão escolar, e, segundo tal estudo, o país, no ritmo de cágado que caminha, demoraria cerca de 200 anos para incluir os jovens no sistema educacional.

De pronto, o instituto responsável pela avaliação apresenta números, e contra números, sabemos, não há conversa: dados de 2015 (estamos em 2017!) revelam que 22% dos jovens entre 15 e 17 anos estão fora da escola. Também de acordo com os números, temos hoje (2015) cerca de 10,3 milhões de jovens nessa faixa etária. Do total, 1,5 milhão sequer se matricularam em uma escola e outros 1,9 milhão abandonaram a escola antes mesmo de completar o ano e/ou foram reprovados.

O que me consola é que 6,9 milhões frequentaram a escola por um tempo e lá aprenderam a ler algumas garatujas, razão pela qual a maior empresa de notícias do país consegue elencar diariamente as matérias de preferência de seus leitores; o que me assusta é que esses leitores preferem ler e comentar a ‘perereca’ da Luciana Gimenez e a primeira orgia da Cláudia Raia enquanto o país literalmente afunda pelo ralo.

Outro dado curioso que gostaria de comentar com você leitor é o fato de que o tal instituto aponta como a principal causa de evasão escolar o trabalho. O trabalho, sim, o trabalho surge nas entrelinhas como o vilão da história. Para isso, a jornalista exemplifica a matéria com o caso singular do jovem Jonathan, que, aos 18 anos, no segundo ano do ensino médio, descobre que a namorada está grávida e é obrigado a deixar a escola para se tornar chefe de família.

Ora, casos como esse acontece e são frequentes, mas não explicam tamanha evasão e nem se pode creditar ao trabalho a vilania da prosa. Vejam: ao pesquisar, encontrei várias outras matérias (mais atualizadas) sobre o desempregado entre os jovens entre os 14 e 24 anos (lembrem-se que trabalhar aos 14, 15 e 16 é crime perante a lei!) que trazem o índice nada louvável de 28,8%.

Façamos as contas: 10,3 milhões de jovens x 28,7% significa que temos cerca de 3,0 milhões (2,9664 para ser mais preciso) de jovens desempregados. De modo que, considerados os 3,4 milhões de jovens evadidos das escolas, resta um saldo de 400 mil alunos prejudicados pelo malfadado hábito de trabalhar.

O estudo aponta ainda outros culpados: a infraestrutura, a carência de professores, a qualidade de ensino, o clima escolar. Dei o braço a torcer, afinal, educação só é quesito na pauta de políticos às vésperas de eleição…

Por fim, o estudo também aponta como causa de evasão escolar a baixa resiliência emocional entre os jovens. Flexionei o pescoço, olhei para baixo e entabulei um curto diálogo com meus botões: “O que acham? Lembram-se do maus bocados pelos quais passamos? Levantávamos às 5 da manhã, trabalhávamos o dia todo, estudávamos à noite; os sábados, bem, aos sábados sequer saíamos… tínhamos trabalhos a fazer. Os botões, levados por meus movimentos, desviaram-se à direita, depois à esquerda. Um deles, teso e carrancudo, sussurrou: “Acho que temos uma geração de fracotes.” Reaprumei o pescoço, ergui a cabeça e fingi não ter ouvido aquela outra sinonímia de ‘falta de resiliência’.

Imagem: Reprodução

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