Dirceu Magri Miscelânia

Lucélia Santos, Carlos Vereza e Ana Clara

Dirceu Magri
Escrito por: Dirceu Magri

Por Dirceu Magri – Em busca do carro das ideias, uma vez mais ensaio voos de colibri – ou de borboletas. O quotidiano se impõe e me vejo levado a um adejar de abelha, em humilde remissão ao célebre dito de Montaigne. Vá lá, quem sabe eu consiga fazer um mel que seja todo meu. Não creio ter uma alma afeita à quizília, mas abelhas têm ferrões e, como dizia o velho Machado, a crônica é como gato, acaricia arranhando. Desta feita, ao recolher algum pólen aqui e acolá é provável que às flores esqueça algum ferrão.

Creio, leitor, que nada pode ser diferente, afinal, viver é faca de dois gumes e concordar cegamente nunca foi de bom tom, portanto, desconfie de muito galanteio e muita lisonja. Pois bem, vivemos tempos de intenso falatório, e ai de quem discorda da galera com megafone em punho, do politicamente correto etc e tal. Esse falatório, na maioria das vezes, é propositado, creio eu, porque nos afasta do que mais importa, do que nos é mais próprio.

Na redes sociais, grupos se organizam e, num átimo, faz de uma simples opinião – que é de direito a todos –, por tratar-se de uma discordância, algo ferino, que tergiversa, blasfema, insulta, impreca, destrói, calunia e corrompe! Isto posto, acreditam que o mais importante é falar, esquecendo-se de que a fala é feita de pausas e silêncios que residem, sobretudo, no escutar.

Um leve pouso em uma dessas flores do campo e envolvo-me de um pólen cuja fonte ignoro; de lá apreendo que a dificuldade de escutar advém principalmente do renunciar à satisfação de exprimir-se. E mais, escutar é abdicar do controle, deixar-se guiar, digerir e deixar-se tocar pelo outro; algo como outorgar ao outro certa liberdade e algum poder sobre si mesmo. É desistir, ao menos temporariamente, daquele discurso internalizado que carregamos há algum tempo e ao qual atribuímos alguma verdade. É renunciar ao uso de seu/nosso poder sobre o outro. Escutar é correr o risco de se sentir confuso, de não entender bem o interlocutor, de não conseguir ajudá-lo e sobretudo não poder salvá-lo (isso àqueles que se julgam os donos da verdade). Escutar é, portanto, uma espécie de luto para viver, o luto da nossa onipotência, da nossa fala, enfim.

O discurso quotidiano avança e se publiciza, disseminado por vozes supostamente “entendidas” disso ou daquilo. O resultado é um bando de gado marcado ejaculando as mesmas palavras, gritando aqui e ali a supremacia de seu lugar de fala, de modo a tornar tudo previsível; o mais leitor arguto conhece o diálogo de cabo a rabo, porque este é impessoal, trazendo em si uma suposta segurança, que acredita-se vantagem.

Nessa lógica, a musa multiculturalista, em seus filminhos youtube, atribui o adjetivo fascista àquele que se nega a escutar, mas, ao fazê-lo reproduz o mesmo e pela negação tenta impor o “seu” discurso, negaceia escutar e relativiza a fala do outro.

O desamparo é total, a seletividade é hiperbolizada. A fala do discordante é exagerada, ampliada e comentada a partir de crítica ideológicas e, finalmente, transformada em “discurso fascista” (uso a palavra porque está na moda). As opiniões, sejam elas de esquerda, sejam de direita, são severamente criticadas e refutadas por aqueles que não fazem parte da mesma panelinha ideológica. Vejam, por exemplo, o pólen que busquei hoje em uma flor da rede, em que um internauta (Braz Chediak) comenta o direito à opinião a dois atores brasileiros, um achincalhado por ser coxinha e outra por ser mortadela (rótulos usados sempre pejorativamente, inclusive por intelectuais):

“LUCÉLIA SANTOS é uma atriz brasileira. Uma grande atriz brasileira.
Desde o início de sua carreira teve posições políticas que devem ser respeitadas, como devem ser respeitadas todas as opiniões – estamos numa democracia. Lucélia defende Lula. Quer sua liberdade. É opinião de Lucélia e, portanto, deve lutar por ela como lutou por todas suas convicções e sua arte.

CARLOS VEREZA é um ator brasileiro. Um grande ator brasileiro.
Ele tem suas posições políticas que devem ser respeitadas – estamos numa democracia. Vereza é a favor da condenação de Lula. É opinião dele e, portanto, deve lutar por ela como lutou para ser o grande ator que é.

LUCÉLIA SANTOS está sendo duramente atacada nas redes e blogs, com comentários que ultrapassam o bom senso. Não respeitam sua opinião, não respeitam sua vida. E ISTO É UMA MANIFESTAÇÃO FASCISTA, DE ÓDIO.

CARLOS VEREZA foi atacado por intolerantes que pediram ao público que boicotassem seu espetáculo em Brasília. Nas redes sociais, fazem análises maldosas sobre sua arte e sua vida. E ISTO É UMA MANIFESTAÇÃO FASCISTA, DE ÓDIO.

Lucélia Santos e Carlos Vereza são dois grandes artistas; são dois exemplos de nosso povo. Faltar com o respeito a eles é faltar com o respeito à liberdade de expressão, à democracia, é faltar com o respeito ao país.”

Concordo com Chediak, mas, à imprensa vendida/comprada e tendenciosa, que importância tem isso?

É melhor tratar de assuntos mais palatáveis e alienantes: “Ana Clara ficará na história”, anuncia a chamada do site do jornal que se diz a serviço do Brasil, enquanto este desce a ladeira. Quem é Ana Clara?

Imagem: Reprodução

Sobre o autor

Dirceu Magri

Dirceu Magri

DIRCEU MAGRI é mestre e doutor em literatura francesa pela Universidade de São Paulo. É membro da Société Française d’Étude du Dix-Huitième Siècle (Sfeds) e editor da Revista Non Plus. É autor de De Borboletas e colibris em sobrevoo: a presença francesa nas crônicas machadianas (Editora FAP-UNIFESP, 2016) e pesquisador na área das relações literárias França-Brasil. Professor Visitante, leciona Língua e Literatura Francesa na UFV (Universidade Federal de Viçosa).

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