Dirceu Magri Miscelânia

Onde nascem os fracos

Dirceu Magri
Escrito por: Dirceu Magri

Por Dirceu Magri – “Onde nascem os fortes”, título de um folhetim em cartaz, revela-se sintomático se confrontarmos a ficção à realidade. Questões de verossimilhança à parte – até mesmo porque sequer conheço o enredo do tal folhetim, portanto, qualquer coisa que venha a dizer seria pura especulação -, atenho-me ao título, que sugere um grupo de homens e mulheres perseverantes, resistentes às intempéries, cuja têmpera vigorosa vai de encontro às vicissitudes da vida.

Vá lá, por isso que a ficção é inebriante: quem não se lembra se Robinson Crusoé, que bateu os pés contra os pais, que o queriam advogado, para lançar-se ao mar em esplêndida aventura? Quem não se lembra de Julien Sorel, de aparência frágil, traços irregulares e nariz aquilino, que enfrenta toda sorte de pressões impostas pela sociedade e, malgrado sua origem modesta, revela-se ambicioso e sedutor, ultrapassando as mais diferentes dificuldades?

É possível que em um momento ou outro de suas narrativas, Defoe e Stendhal tenham transferido características de seus contemporâneos às suas personagens. Não quero dizer com isso que nos séculos XVIII e XIX não tenha havido seres bastante suscetíveis e fracos. Mas, convenhamos, eram outros tempos, aliás tempos em que as dificuldades se interpunham com muito mais frequência, não importa quais fossem as iniciativas a que se propunha o homem.

Mas, como disse, isso é ficção. Não por outra razão escritores usam de artimanhas para criar seus heróis, eternizando-os por meio da escrita, ao passo que toda uma raça de mortais, que vive no anonimato, não se esforça por deixar um vestígio, uma trilha, uma marca. Falo dos jovens de nossos tempos.

Vivemos época de muito falatório em que os discursos mais apreciados por essa geração de fracos são aqueles que reverberam a vitimização. Alguns educadores creditam o início do chororô atual a uma geração de pais que quiseram poupar seus filhos das agruras que, no passado, viram-se obrigados a vivenciar. A palavra “não” sofreu rápido interdito. Jovens, e muitos adultos de nossos dias, foram poupados de todo o sofrimento e de toda a frustração. Exímios e hábeis em determinadas atividades, são absolutamente desprovidos de crítica, deixam-se ser manipulados e sequer dão conta de que estão sendo alienados a cada instante em que repetem exaustivamente a cartilha deste ou daquele. O emocional desses jovens é frágil, não têm resistência alguma, sentem-se vítimas do sistema, dos pais, dos professores e de quem porventura lhes disser um sonoro “não”.

Se a criação dessa geração de fracos começou no recôndito do lar – que clichê! -, hoje ela tem continuidade nas escolas e universidades. Os estudantes – refiro-me quase sempre aos estudantes de humanas, com os quais tenho contato -, são politicamente atuantes, militantes, conhecem direitos das mais diversas naturezas, de todas as classes que compõem a comédia humana e versam sobre leis – nas redes sociais mostram-se juristas especializados em constituição, criminalística etc e etc. Professam uma erudição funkeira que urge contra aqueles que ousam desdizer suas afirmações categóricas, ao mesmo tempo em que defendem a liberdade de expressão, para, no fim, valer a máxima de que só aceitam que o outro diga o que querem ouvir, caso contrário, a tão propalada alteridade será constituída pela execução sumária daquele que contradiz o que tomaram por dogma. E, é claro, há sites e blogs especializados em entorpecer os fracos.

Como dizia, essa geração de jovens experts em tudo, mostra-se fraca e coloca-se como VÍTIMA quando deve cumprir com suas obrigações. Peça a um estudante para ler quatro, cinco livros, no semestre e o que se há de ouvir é choro e ranger de dentes. O primeiro a ser posto contra a parede é o professor, depois reclamam para outros professores e coordenadores. Muitos professores, sabendo que podem cair em desgraça, edulcoram a pílula, ou seja, reduzem a carga de leitura, escolhem os livros mais palatáveis, etc.  Da esterilidade intelectual partem para a sentimentalização. E, é claro, sempre encontram uma Delphine Roux pela frente a lhes oferecer o ombro e a incensar a vitimização.

Evidente que não generalizo, mas assusta o aumento de vítimas sem que ao lado imperem seus opressores; estes, para essa geração de fracos, são exponenciais e institucionalizados, de modo que hoje é comum ouvir professores universitários, por exemplo, creditar o baixo desempenho de alunos à opressão imposta pelo sistema.

Por fim, o que me surpreende é esses jovens não se responsabilizarem por seus atos, características dessa geração, afora a preguiça e o marasmo em enfrentar as vicissitudes da vida, transpor barreiras do quotidiano, de modo que os fracos – e aqui vou plagiar o modo de ser desses jovens, ou seja, culpabilizar alguém – nascem como resultado dessa sociedade que abomina os fortes. Talvez porque o lugar destes seja na ficção. É uma pena que não leiam! A leitura inspira!

Imagem de capa: reprodução

Sobre o autor

Dirceu Magri

Dirceu Magri

DIRCEU MAGRI é mestre e doutor em literatura francesa pela Universidade de São Paulo. É membro da Société Française d’Étude du Dix-Huitième Siècle (Sfeds) e editor da Revista Non Plus. É autor de De Borboletas e colibris em sobrevoo: a presença francesa nas crônicas machadianas (Editora FAP-UNIFESP, 2016) e pesquisador na área das relações literárias França-Brasil. Professor Visitante, leciona Língua e Literatura Francesa na UFV (Universidade Federal de Viçosa).

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