Dirceu Magri Miscelânia

Opinião vs Ideia

Dirceu Magri
Escrito por: Dirceu Magri

Por Dirceu Magri – Afirmar que vivemos dias difíceis, soa algo redundante. Estranhos, diferentes, esquisitos… O adjetivo que porventura possa ser colocado à frente do substantivo “dias”, não faz lá muita diferença. Aliás, adjetivos só servem mesmo para pesar o texto; quando atribuídos às pessoas, ajudam a criar um novo rótulo – rótulos andam tão em moda em nossos dias -, e, com isso, mais uma razão para que a intolerância se materialize.

Não acredito que nossos avós, passados seus verdes anos, não verbalizassem certa desesperança ou decepção com esse mesmíssimo clichê. Nem sempre nos damos conta, mas o fato é que acabamos por reproduzir sistemas ad infinitum, no máximo com roupagem diferente. O esforço para escapar da espiral deve ser quotidiano. Não parece, mas também nos grupos que militam por causas minoritárias é frequente a reprodução de conceitos já gastos pelo tempo, algo que, na maioria das vezes, encarrega-se pela materialização de algum preconceito.

Qualquer tentativa de afirmação, na prática, resvala em duas palavrinhas também já gastas pelo uso: opinião e ideia. Da opinião, os dicionários afirmam em certo ponto que se trata de uma ideia, teoria ou tese. Já, ideia, definem os dicionários como maneira de ver, opinião. É claro, tudo isso corrobora o mundo da vulgarização dos conceitos, que são utilizados exaustivamente pelos falantes. Não que isso esteja errado, ao contrário, pode-se perfeitamente fazer uso desses vocábulos sem qualquer prejuízo à fala.

Ocorre, porém, que no universo das redes sociais, esfera da aversão, da injúria e do ódio, a opinião traveste-se de ideia em seu sentido de origem, qual seja, erudito, cujos rizomas fundam-se na filosofia. A opinião, que na filosofia recebe a alcunha de doxa, na maioria das vezes é uma ideia confusa, alterada, acerca da realidade, razão pela qual há se opor a qualquer conhecimento tido como verdadeiro. E como no universo das redes sociais tudo é subjetivo e está sujeito à dependência de atividade mental do sujeito e de sua própria ausência – sim leitor, ausência, porque compartilhar e opinar como se estivesse usando cabresto – o que impede a visão periférica -, implica em ausentar-se, deixar de idear, portanto, ficar à mercê do grau de intensidade exigido e imposto por aqueles que manobram sub-repticiamente o mundo das opiniões.

Não raro, quando um internauta descobre o mundo das ideias e sua mente passa a se ocupar disso, qual seja, quando ele começa a questionar o sistema de opiniões imposto pela maioria e disseminado pela mídia e religiões ideológicas, é expulso da conversa e tem seu pensamento objetivo relativizado pelo grupo e/ou maioria das ovelhas.

Ora, para Locke, por exemplo, as ideias são essenciais para a compreensão, talvez por isso vivemos esses tempos de intenso falatório, mas poucas ideias. O fato é que as ideias são acessíveis através de alguma inteligência e, parece-me, não só a canalha política encarrega-se de entorpecer os cidadãos, mas estes, por si só, contribuem em grande parte para o emburrecimento e embrutecimento geral, isto ocorre todas as vezes em que opinamos sobre coisas que não vemos e, quando as vemos, afirmamos tratarem-se de coisas diferentes daquilo que temos frente aos nossos olhos. Tudo isso, é claro, em benefício do politicamente correto.

Abro um parênteses: nas vezes em que critico o politicamente correto, critico a hiperbolização do conceito, os excessos que nos tornam cada dia mais hipócritas e mais perversos. Nunca, afirmo, nós, brasileiros, fomos tão bipolares e sofremos tanto com o tal do transtorno dissociativo de identidade.

Ao refletir sobre opinião, ideia e nossa bipolaridade quotidiana, vem-me ao espírito, é claro, Platão. Ora, o filósofo falava em um mundo inteligível, algo que constitui uma Ideia Universal, donde provém a ideia que fazemos de alguma coisa. Essa ideia, por sua vez, é uma projeção do saber. Explico: quando vemos alguma coisa, nossos olhos emitem raios de luz que projetam a imagem dessa mesma coisa, que, por sua vez, passa a existir em nós como um princípio universal, doutrina a que chamamos idealismo.

Ocorreu-me que muito de nossa confusão é por idealizar de modo diferente o que vemos. Aí, dá no que dá: alguém revê uma pessoa depois de um tempo, diz a ela que a acha mais gorda que da última vez em que se viram, e pronto: a polêmica está instalada! Outra pessoa, que também já foi gorda um dia, mas gastou tempo e dinheiro para perder um pouco de suas substâncias untuosas, sai em defesa da primeira, que um dia se olhou no espelho, projetou um saber diferente e idealizou-se bem mais leve e por isso, só por isso, não gostou de ouvir que está mais gorda. Fiz me entender? Pois é, talvez o mesmo tenha acontecido nas redes sociais em relação à polêmica da semana. Por isso, decreto o fim das balanças – e dos espelhos. Ah, e das ideias, afinal, gostamos mesmo é de opinar!

Imagem: Reprodução

Sobre o autor

Dirceu Magri

Dirceu Magri

DIRCEU MAGRI é mestre e doutor em literatura francesa pela Universidade de São Paulo. É membro da Société Française d’Étude du Dix-Huitième Siècle (Sfeds) e editor da Revista Non Plus. É autor de De Borboletas e colibris em sobrevoo: a presença francesa nas crônicas machadianas (Editora FAP-UNIFESP, 2016) e pesquisador na área das relações literárias França-Brasil. Professor Visitante, leciona Língua e Literatura Francesa na UFV (Universidade Federal de Viçosa).

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