Dirceu Magri Miscelânia

Por que ler romances?

Dirceu Magri
Escrito por: Dirceu Magri

Por Dirceu Magri – O que nos move à leitura? Por que jovens buscaram avidamente pelos livros da série Harry Potter, de J. K. Rowling e, mais recentemente, o fizeram com Crepúsculo (Twilight), a saga dos vampiros de autoria de Stephenie Meyer? Por que continuamos a ler Madame Bovary? E o Código da Vinci, por que tornou-se um fenômeno avassalador de vendas por todo o globo? Será que lemos pelo mais simples dos impulsos humanos, a tal da curiosidade, aquela vontadezinha para a bisbilhotice? Seja o que for, o certo é que nos apaixonamos por histórias inventadas, envolvemo-nos e, ainda que como espectadores, participamos, vibramos e choramos o destino de personagens que jamais existiram.

O fato é que a literatura não só contribui para o entretenimento, mas amplia horizontes e nos oferece novos olhares sobre o mundo – e sobre nós mesmos.

O livro vai bem: a 24a Bienal do Livro de São Paulo movimentou milhões em venda de livros! E o romance estava lá em todos seus matizes. Por que tanto sucesso? A resposta não é nada óbvia. O romance não tem – nunca teve, a pretensão de verdade ou objetividade; pelo contrário, nele impera a subjetividade e a realidade ali não passa de verossimilhança.

Ler um romance implica certo ritual; sua leitura exige a dedicação de várias horas, dias, quiçá semanas. E qual o resultado? A que custo? O que buscamos com a leitura de um romance, que não encontramos nem em obras teóricas ou práticas, nem nos filmes, nem nessa avalanche de quinquilharia eletrônica colocada à disposição do consumidor contemporâneo?

À busca dessas respostas, o melhor talvez seja começar pelo próprio termo – romance. O que dizer sobre isso? Atrás dessa palavra vêm de arrasto definições bem diferentes entre si: livros, ficção, romance de tese, romance realista, romance epistolar, romance de série, romance autobiográfico, romance histórico, romance naturalista, romance de cavalaria, romance de aventuras, romance regionalista, romance indianista, romance desmontável, romance didático, romance negro, romance psicológico, romance policial, romance urbano, romance de capa e espada, Stendhal, Balzac, Proust, Dumas, Victor Hugo, Dostoievski, Tolstói, Goethe, Machado de Assis, Guimarães Rosa…

Às vezes, ficamos tentados em excluir do grande gênero romance o romanesco das fábulas, os contos, as novelas, as memórias, mas, por outro lado, admitimos que muitas das notícias ou histórias veiculadas pela internet, por exemplo, rendem ou equivalem um bom romance. Enfim, essa catalogação não é rígida, sequer convincente. Parece-me que o dito de Maupassant continua valendo: “A crítica que ainda ousa escrever: ‘Isto é um romance e isto não se parece com um’ parece dotada de uma perspectiva que se assemelha muito à incompetência”.

O romance é plural e só isso já dispensa uma leitura unívoca. O romance é um gênero em constante mutação, uma metamorfose ambulante – como diz a canção, e, sua única constância é seu caráter inconstante. Quaisquer que sejam os saberes que ele carrega ou qualquer das ambições científicas que a ele queiram atribuir, ainda assim, ele continua a trazer o menos científico dos discursos.

O romance não expõe fatos, não explora conceitos, não deduz ideias. Ao rigor da ciência, ele opõe o aleatório e o inesperado. Contra o universal e conceitual, ele instaura o singular, o efêmero, o minúsculo, o sensual, o acaso, a batida de um coração, uma sensação de violência, o ardor de uma discussão … Daí a tentação de classificar a leitura de romances como entretenimento, ao passo que a leitura de livros científicos e de ensino é vista como atividade reservada à aquisição de conhecimento. Ronald Shusterman, especialista em estética, afirma: “Ficção não é conhecimento”.

No entanto, muitos estudiosos falam do poder heurístico ou do poder cognitivo da literatura. Ou seja, aquilo que procuramos em romances, nada mais é que compreender melhor o humano, o mundo, a vida. Os discursos são vários e díspares: Todorov ressalta que a literatura não é a primeira das ciências, Genette afirma que o caminho do romance é de ordem cognitiva, e historiadores olham para a literatura em busca de verdades históricas. Mesmo a ciência cognitiva traz a sua pedra para o edifício da teoria: a partir de seus conhecimentos sobre os mecanismos do cérebro, hoje ela faz incursões ao lado da crítica literária.

Nesse rodamoinho, insiste a pergunta que deixa a todos perplexos e acirra a divisão entre literatos, sociólogos, historiadores, cientistas cognitivos, etc: que tipo de conhecimento específico traz o romance?

É certo que alguns romances podem reconstituir um universo histórico ou social, decodificar relações sociais e nos informar de maneira vibrante sobre a psicologia humana. Mas, nem por isso têm relação exclusiva com as humanidades, o ensaio ou o cinema. Por isso, devemos distinguir o conteúdo de conhecimento que um texto é detentor, além do imaginário que nele se desdobra. Reduzir o papel de Jules Verne a divulgador da ciência de seu tempo é ignorar as razões que sempre levaram os adolescentes a se apaixonarem e a se envolverem com os sonhos do Capitão Nemo e ignorar a encenação das paixões mais primitivas orquestrada em as Vinte mil Léguas Submarinas (1870).

Enfim, para encurtar a prosa: o romance teima em escapar às definições, sejam elas traçadas pelos críticos literários, pelos estudiosos cognitivos, psicólogos, historiadores, sociólogos ou quem que seja. A fronteira do gênero é flexível, ora se estende ora se retrai, às vezes, acolhe num mesmo território indivíduos díspares e estranhos. O que conta, afinal é o leitor, suas motivações, suas experiências – e não apenas o texto literário – e isso é um dos aspectos mais estimulantes. Que insistam sobre a dimensão cognitiva, moral, ou afetiva da leitura, vá lá. Ao fim, não passam de discursos para romper com velhos dogmas. Ler é mais. Ler não é apenas conversar com grandes autores do passado e do presente. É um ato de reflexão, um exercício de pensamento, é descobrir outros mundos, outras personagens, incorporar novos saberes. Ler é marcar um encontro consigo mesmo!

Imagem: Reprodução

Sobre o autor

Dirceu Magri

Dirceu Magri

DIRCEU MAGRI é mestre e doutor em literatura francesa pela Universidade de São Paulo. É membro da Société Française d’Étude du Dix-Huitième Siècle (Sfeds) e editor da Revista Non Plus. É autor de De Borboletas e colibris em sobrevoo: a presença francesa nas crônicas machadianas (Editora FAP-UNIFESP, 2016) e pesquisador na área das relações literárias França-Brasil. Professor Visitante, leciona Língua e Literatura Francesa na UFV (Universidade Federal de Viçosa).

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