Violência

Professores relatam pânico em escola de aluno baleado no Rio: ‘Você está no meio da aula e começa o desespero’

Redação
Escrito por: Redação

Na manhã em que o menino Marcos Vinícius da Silva, de 14 anos, foi baleado na barriga a caminho da escola no Rio de Janeiro, o professor de História Alexandre Dias estava no meio da aula quando ouviu tiros cada vez mais perto – e correu com todos os seus alunos para buscar refúgio.

Em instantes, estudantes de todas as turmas do Ciep Operário Vicente Mariano estavam sentados ou deitados no corredor enquanto os tiros soavam lá fora, vindos, segundo relatos de professores e moradores, de um helicóptero da Polícia Civil que sobrevoava o Complexo da Maré durante uma operação no conjunto de favelas na zona norte do Rio.

“Os pais começaram a chegar desesperados procurando seus filhos, dizendo que o helicóptero estava atirando, que o asfalto estava com buracos gigantescos. Avós, tias, madrinhas chegaram nervosíssimos perguntando pelas crianças, alguns trêmulos, quase passando mal”, conta Dias.

“Isso não é nada novo, acontece sempre. Mas alguns dias são mais desesperadores.”

A operação realizada pela Polícia Civil na quarta-feira foi um desses dias. As cerca de 15 mil crianças e jovens matriculados nas 44 escolas da Maré estavam em aulas quando a ação começou, por volta das 9h.

Cenas de pânico se repetiram nos corredores de escolas, com crianças e professores chorando e pais chegando para levar os filhos para casa, arriscando sair apesar dos tiros que perfuravam asfalto, telhados, caixas d’água.

Protesto após morte de meninoDireito de imagemNALDINHO LOURENÇO
Image captionSob forte comoção e revolta de amigos e familiares, aluno foi sepultado no Cemitério São João Batista

Dias imediatamente liberou o uso de telefones celulares para que os alunos pudessem falar com suas famílias. Emprestou seu aparelho para alguns, enquanto buscava assegurar que todos permanecessem à vista – e que nenhum saísse para as áreas abertas da escola, onde estariam mais vulneráveis a tiros.

Marcos Vinícius, de 14 anos, se apressava para a escola vestindo o uniforme da rede municipal de ensino quando foi atingido. Ele era aluno do 7º ano.

“Ele gosta de brincar, conversar, é bem humorado”, descreveu Klaus Grunwald, professor de música do Ciep, enquanto todos ainda aguardavam, apreensivos, notícias sobre sua recuperação. “Gosta daquela turma da bagunça, sabe? Aquela galera do fundão (da sala). Quando tem educação física, então, é uma festa. É um moleque, como outro qualquer.”

O jovem morreu na noite de quarta-feira, depois de passar por uma cirurgia no Hospital Getúlio Vargas. A prefeitura decretou luto oficial de três dias e decidiu abrir as portas do Palácio da Cidade para o seu velório. Sob forte comoção e revolta de amigos e familiares, ele foi sepultado no Cemitério São João Batista, na tarde de quinta-feira.

35 dias sem aulas em 2017

Quando os tiros começaram, Alexandre Dias tinha acabado de começar uma aula sobre a Revolução Francesa e estava introduzindo os alunos aos pilares da igualdade, fraternidade, liberdade.

“É muito difícil. Você está no meio do dia de aula, está tudo normal e de repente começa o desespero. Acho até que os alunos encararam bem”, considera ele, que dá aula para jovens de entre 13 e 15 anos. “Alguns choraram, mas a maioria conseguiu ficar tranquila. Os professores também ficaram no chão, alguns em desespero, outros conseguindo se manter calmos para controlar os alunos.”

Alunos após ação da políciaDireito de imagemALEXANDRE DIAS
Image captionDe acordo com levantamento da ONG Redes da Maré, em 2017, os alunos ficaram 35 sem aula por causa da violência

“Nessas horas, nós (professores) seguramos as emoções para mantê-los calmos. Não podemos demonstrar fraqueza para os alunos”, diz Grunwald, de 34 anos.

Em março deste ano, o professor de música participou de um curso de capacitação e primeiros socorros com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, voltado para professores que dão aula em áreas conflagradas. Ele integra um grupo de WhatsApp chamado Acesso Mais Seguro, que junta professores para discutir e ajudar a implementar planos de emergência em diferentes escolas.

Defasagem

Aulas interrompidas e canceladas durante tiroteios ou confrontos em operações policiais estão longe de ser uma raridade no Complexo da Maré.

De acordo com levantamento da ONG Redes da Maré, em 2017, os alunos ficaram 35 sem aula por causa da violência, na maioria das vezes durante operações policiais. Em 2016, foram 18 dias.

No longo prazo, as interrupções constantes trazem prejuízos “gigantescos” à educação dos alunos, que sofrem com atrasos nas matérias, evasão de professores e os traumas gerados por estar na linha de tiros – ou ver amigos caírem vítima de bala perdida, como ocorreu com Marcos Vinícius.

“Os impactos sobre o ensino são terríveis”, diz Dias. “Os professores não conseguem avançar na matéria, e as aulas perdidas atrasam o calendário. Semana que vem, por exemplo, seria semana de prova. Agora, as avaliações provavelmente vão ser adiadas.”

“Essas coisas vão minando os alunos. E minando também quem quer dar aula. Como eu sou da Maré, não fui minado. Gosto de dar aula aqui”, afirma o professor de História, que tem 42 anos e é nascido e criado ali.

Ele diz que a evasão no corpo docente é um problema sério nas escolas do complexo.

“Muitos professores pedem transferência para outras escolas porque não conseguem conviver com isso por muito tempo. Ficam um tempo e depois não aguentam. É um rodízio constante de professores”, afirma Dias.

Na quarta-feira, uma nova professora tinha acabado de chegar para o seu primeiro dia na escola, interrompido pelo tiroteio. “Sinceramente, não se ela vai voltar”, afirma Dias.

‘Sou aluno, não suje minha blusa de sangue’

A Polícia Civil afirma que a operação de quarta, realizada com apoio do Exército e da Força Nacional, foi uma força-tarefa para cumprir 23 mandados de prisão e “checar informações obtidas através do setor de inteligência”.

Seis homens foram mortos pela polícia na operação. Segundo nota enviada à imprensa, policiais teriam sido recebidos com “intenso disparo de armas de fogo” durante cumprimento de mandados em duas residências.

Menina com cartaz em atoDireito de imagemNALDINHO LOURENÇO
Image caption‘Sou aluno, não suje minha blusa de sangue’, disseram estudantes durante protesto

“No confronto, seis criminosos foram feridos e socorridos, mas acabaram morrendo”, diz a nota, acrescentando que a operação resultou na apreensão de oito fuzis e granadas e de uma “farta quantidade” de munição e de drogas.

No dia seguinte, o Ciep se manteve de luto. O dia letivo dos alunos foi substituído por protestos e pelo enterro de um colega.

De manhã, os estudantes marcharam do Ciep à Linha Amarela. Vestiam o uniforme escolar com manchas vermelhas pintadas na barriga, e a palavra “paz” pintada no peito. Faixas diziam: “Sou aluno, não suje minha blusa de sangue.”

“O clima é de revolta”, conta Dias, que acompanhou o protesto na Maré de manhã. “O ato foi muito forte, com alunos e professores chorando. Os alunos estão revoltadíssimos com a situação. Não sei como serão os próximos dias.”

Na Linha Amarela, os estudantes tentaram interromper o trânsito para estender faixas, mas foram repreendidos por policiais militares. Segundo relatos e vídeos do local, PMs foram truculentos e intimidaram alunos e professores.

Um vídeo recebido pela BBC News Brasil mostra um PM dando uma paulada na perna de uma aluna no protesto, aumentando a revolta dos alunos.

‘Qualquer um pode ser alvo’

Embora confrontos ocorram reiteradamente no complexo, a diretora da Redes da Maré Eliana Sousa e Silva diz que a “novidade” desta vez foi o uso de um helicóptero, conhecido como “Caveirão aéreo”, como plataforma de tiro – o que já havia sido feito em outra operação na segunda-feira da semana passada.

A ONG contou 100 disparos feitos do helicóptero, numerados e circulados com tinta colorida por colaboradores na comunidade.

Para Silva, dar tiros do alto em uma área com 140 mil moradores significa aceitar que qualquer um pode ser alvo, em uma prática ilegal e “completamente inaceitável”.

Estudantes com cartazes durante protestoDireito de imagemWL/CLUBE DO JORNAL DO OPERÁRIO VICENTE MARIANO
Image captionONG contou 100 disparos feitos do helicóptero, numerados e circulados com tinta colorida por colaboradores na comunidade

“Isso mostra um entendimento de que estamos em situação de guerra. Não conseguimos entender como o Estado se coloca de maneira tão violadora de direitos”, condena. “Será que fariam isso no Leblon ou Ipanema?”

O Rio está sob intervenção na área de segurança pública desde fevereiro. O Gabinete da Intervenção Federal (GIF), procurado pela BBC News Brasil, não quis se pronunciar.

A Polícia Civil não comentou as denúncias de violações de direitos humanos, nem respondeu às críticas sobre os tiros dados do helicóptero.

A Delegacia de Homicídios da Capital abriu inquérito para apurar as circunstâncias de morte do rapaz. Questionada, a Secretaria de Segurança afirmou que não comentaria as críticas.

O professor Klaus Grunwald diz que os últimos três meses haviam sido mais calmos na comunidade. “Estávamos até surpresos.”

Ele lamenta que as operações policiais acabem sendo a face mais visível do Estado na Maré, quando a comunidade e as escolas têm tantas carências.

“Faltam recursos humanos, faltam materiais, falta verba. O Estado não faz nada aqui dentro. Entrar para atacar a violência com mais violência não vai resolver os problemas”, considera. Com informações da BBC

Imagem de capa:AG. BRASIL

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