Dirceu Magri Miscelânia

Ruínas, crônicas e lembranças

Dirceu Magri
Escrito por: Dirceu Magri

Por Dirceu Magri – O céu exibe uma lua cheia e brilhante cujo ápice da visibilidade será daqui a dois dias. Contudo, não se dá o mesmo com as notícias, pois à medida que o tempo avança, a impressão que se tem é que elas tornam-se cada vez mais obscuras. Tem sido difícil desvendar as entrelinhas, descobrir o que está por trás, enfim, os interesses de uns e de outros ou de todos em conluio.

Parece-me que temos lido as mesmas notícias há dias, tal a assiduidade com que o modus operandida canaille é desvendado nas páginas dos jornais, sempre de modo seletivo, é claro, e em consonância com os próprios interesses da imprensa. Mas vá lá, deixemos a política torva e sanhuda de lado!

Roma, que é feita de escultura e arquitetura, à sombra de grandes árvores imensas (se não me falha a memória, foi exatamente assim que Rubem Braga a descreveu), surpreendeu mais uma vez, a despeito dos arqueólogos alemães, ingleses, americanos e de tantos outros ciosos de uma boa pilhagem. Explico-me: hoje li em um site italiano dedicado à história romana, que as escavações na tomba del gladiatore ainda continuam a fascinar.

De pronto, foi-me impossível não traçar sinapses intertextuais, uma vez que acabara de ler o Manifesto Antropófago (ou Antropofágico) de Oswald de Andrade; ali, Oswald tasca que nesse paiz da cobra grande “nunca tivemos grammaticas, nem colecções de velhos vegetaes. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental”.

Nessa toada, no encontro de culturas dissimétricas, a antropofagia surge como um conceito que atribui papel ativo à cultura ‘subjugada’. Aliás, não era outra a vontade do Bruxo do Cosme Velho. Machado de Assis se ressente do pays féerique proferido por Sarah Bernhardt, ignorando aspectos da cultura brasileira. Mas, como disse Oswald décadas depois, “nunca soubemos o que era urbano”, e aí, permita-me o leitor um pequeno retoque: “nunca soubemos o que eram ruínas”.

Hoje, achamos ora ou outra um vidrinho aqui, um caquinho de vaso acolá. No XIX, o máximo que fazíamos era tentar exumar uma ou outra ossada, tal aquela há muito sepultada no Castelo e creditada a Estácio de Sá, que Machado comenta em uma de suas crônicas. Machado desconfiava dos tais ossos e, ironicamente, resgata uma historieta em que coloca Méry em Roma a presenciar dois sujeitos cavando os flancos da Cidade Eterna.

Animados por dois lords ingleses, os trabalhadores exumaram fragmentos de uma estátua que aparentava nada mais nada menos que mil anos de idade. Apaixonado por antiguidade e ruínas como Chateaubriand, Méry não se contém e humildemente pede aos ingleses para ajudá-los a transportar as preciosidades. Mais à noite, em uma reunião, Méry descobre que os fragmentos achados haviam sido preparados na véspera para parecerem que datavam de longe. Eis as ilusões do espírito deixando-se iludir pelas ruínas, que, embora falsas, impressionavam e exibiam volumes e massas.

Mas não parece ser esse o caso da tomba del gladiatore: descoberta em 2008 ao longo da Via Flaminia, na periferia de Roma, a sete metros de profundidade, sob vias férreas e em escavações preliminares para a construção de edifícios, surgiu da noite dos tempos não só a tumba, mas também o traçado de uma antiga via romana e um monumento incrivelmente preservado. Descobriu-se que pedaços do mausoléu traziam o nome de uma personagem célebre da história romana, o general Marcus Nonius Macrinus, do exército de Marco Aurélio e desaparecido em 161 d.C.

Como alguns anos antes Ridley Scott havia realizado Gladiator, não demorou muito para que a imprensa ligasse o fictício Massimo Decimo Meridio a Marcus Macrimus; daí por diante, o general romano tornou-se gladiador e seu mausoléu a tumba do gladiador, de modo que a história, mais uma vez, curvou-se à ficção.

Em 2010, veio à luz a estátua da esposa do Gladiador e, como sempre acontece na história de Roma, quanto mais se cava, mas surpresas emergem da terra. O sítio arqueológico em que jaz o mausoléu do Gladiador, dada a sua riqueza, já foi apelidado de “Fórum Romano em miniatura”. As escavações prosseguem, infelizmente visível aos olhos de alguns poucos privilegiados, de modo que Chateaubriand seria impedido de meditar sobre tais ruínas.

Como não sou Chateaubriand nem nada, cá com os meus botões, conto os dias para novamente vislumbrar a ruinaria da Città Eterna.

Sobre o autor

Dirceu Magri

Dirceu Magri

DIRCEU MAGRI é mestre e doutor em literatura francesa pela Universidade de São Paulo. É membro da Société Française d’Étude du Dix-Huitième Siècle (Sfeds) e editor da Revista Non Plus. É autor de De Borboletas e colibris em sobrevoo: a presença francesa nas crônicas machadianas (Editora FAP-UNIFESP, 2016) e pesquisador na área das relações literárias França-Brasil. Professor Visitante, leciona Língua e Literatura Francesa na UFV (Universidade Federal de Viçosa).

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