Talk show do movimento Nós Somos a Ciência entrevista os pesquisadores Felipe Loureiro e Gilberto Camara

Nesse sentido, o movimento Nós Somos a Ciência entrevistou duas referências na área para falarem sobre como a ciência brasileira se posiciona no contexto geopolítico atual.

Fisico e entrevistador Wil Namen

Por Delma Medeiros – As relações internacionais agem como forças propulsoras de desenvolvimento e de integração nas várias áreas do conhecimento. A integração de países, blocos econômicos e até nas relações bilaterais de desenvolvimento e comércio trazem conquistas importantes que não podem ser desprezadas, especialmente considerando o poder dessas relações para o estabelecimento da paz internacional. Nesse sentido, o movimento Nós Somos a Ciência entrevistou duas referências na área para falarem sobre como a ciência brasileira se posiciona no contexto geopolítico atual. O talk show, produzido pela Conexão WASH e gravado no final do ano passado, será reapresentado nesta quinta-feira, 2 de dezembro, às 17h, na rede educativa TVT, com exibição simultânea pelo Youtube.

O físico Wilson Namen, cofundador do Nós Somos a Ciência, entrevista dois pesquisadores que são referência no assunto, Felipe Loureiro e Gilberto Camara. Felipe Loureiro é historiador, com doutorado na área de Relações Internacionais, é professor e coordenador do curso de Relações Internacionais da USP e trabalha diretamente com temas relacionados à inserção do Brasil no sistema internacional, especialmente no que se refere aos EUA, sua base de pesquisa.

Gilberto Camara é engenheiro formado no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e desenvolve pesquisas multidisciplinares de computadores que buscam entender as questões do uso da terra, em especial na Amazônia. Foi diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) de 2005 a 2012, período em que houve o menor índice de desmatamento da Amazônia, fato citado pela revista científica Nature, como “a maior história de sucesso ambiental em décadas”. Atualmente vive em Genebra (Suiça), onde atua como diretor de uma organização intergovernamental dedicada a promover a observação da terra para o desenvolvimento sustentável.

Engenheiro e pesquisador Gilberto Camara

Loureiro lembra que quando estourou a pandemia, o governo brasileiro se alinhou ao governo Trump e não aceitou participar dos trabalhos internacionais para a criação de uma vacina. E cita que o Brasil é um país continental, com muitos recursos naturais, mas no sistema político internacional ocupa uma posição intermediária, que só tem força no mercado internacional quando se alinha com outros países de pequeno e médio poderio econômico e militar. “O Brasil tem um histórico de relação com os EUA. Em 1964, o governo Castelo Branco construiu uma relação preferencial com os EUA, mas de outra forma. Da maneira que vemos hoje é inédita. É uma relação mais entre presidentes (no caso Trump). É uma aliança quase incondicional assimétrica, em que o Brasil recebe poucos benefícios materiais. Não participar das pesquisas em busca de vacinas foi contrário aos interesses nacionais”, coloca.

Gilberto Camara concorda com a posição de Loureiro e destaca que o país tem potencial ambiental para se projetar, mas não tem capacidade militar. Avalia que o Brasil perdeu espaço, por exemplo, na Conferência de Paris, quando deixou de ser líder do terceiro mundo. Aponta que o Brasil tem poder científico, mas não aproveita como deveria. Um exemplo é a relação de décadas com a China na exploração espacial, com dois satélites feitos em parceria entre os dois países. “As competências que o Brasil desenvolveu são boas e estão ai. Não acabou tudo, mas há latência.

specialista em relações internacionais Felipe Loureiro

Os pesquisadores comentam o posicionamento do presidente Bolsonaro quando da eleição americana, em que ele demorou para cumprimentar Joe Biden, novo presidente eleito. “Não reconhecer a vitória de Biden foi péssimo. O presidente não é a única referência, mas sua postura complica as relações entre Brasil e EUA”, avalia Loureiro.

Sobre a alegação do presidente de que a “Europa queimou suas florestas e agora quer decidir sobre a nossa”, Camara foi contundente. “A história não se apaga. A Europa ter no passado destruído suas florestas não justifica acabarmos com as nossas. Fora que a Europa está reflorestando. É loucura essa postura, representa um atraso substancial para o Brasil”, afirma. Cita que o INPE hoje está sendo escorraçado pelo governo. “O espantoso nessas declarações é o despreparo de quem as fala. Um dos grandes problemas que enfrentamos hoje é a total falta de conexão com a realidade”. Camara também diz que se candidatou no processo seletivo do INPE para, como outros cientistas que se candidatam, mostrar que eles estão atentos. “Eu não desisti do Brasil e do INPE”. Destaca que o monitoramento do INPE é reconhecido internacionalmente. E que falta diálogo institucional com o governo, uma estratégia para expor ao escárnio instituições sérias como Fiocruz, Ibama, Butantan, IBGE, INPE, Embrapa.

Sobre o agronegócio brasileiro, Loureiro diz que é visto de forma muito negativa pela maneira como o Brasil atua na questão ambiental. Também coloca que ter menos espaço no mercado internacional, significa menos emprego e menos crescimento.

Uma realização do Movimento Nós Somos a Ciência e Conexçao WASH, o talk show é exibido pela TVT às quintas-feiras, às 17h. No ABC e Grande São Paulo sintonize no canal 44.1. No sinal digital HD aberto, pode ser assistido no canal 512 NET HD-ABC. Também é exibido simultaneamente no Youtube, onde fica disponível em qualquer horário. Mais informações no https://wash.net.br.

Revisão: Wilson Namen